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O TROGLODITA E O CÁLCULO AVANÇADO


Aquele era um homem-das-cavernas muito especial. Não apenas pelo fato de ser um homem-das-cavernas, coisa que por si só já tornaria alguém especial, mas principalmente por ser um homem-das-cavernas capaz de fazer contas de até oitocentos decimais, de cabeça, isso milhares e milhares de anos antes de o decimal, e até mesmo os números, terem sido inventados. Tudo começou quando ele olhou para as próprias mãos e contou o número de dedos que havia nelas: oito! (dois se foram na boca de um tigre dentes-de-sabre). Logo em seguida ele calculou quanto haveria de dedos para cada um dos trinta e nove tigres dentes-de-sabre que atuavam naquela região, caso fossem divididos igualmente entre eles. A conta era um número que começava por zero, passava por uma vírgula e terminava – se é que terminava – numa sequência de números que o troglodita levaria cerca de duas horas para enunciar, caso suas cordas vocais já estivessem evoluídas o suficiente para desenvover a linguagem. Soltou um grunhido de surpresa. Sua facilidade com os números era incrível, ao ponto dele literalmente vê-los, fisicamente, numa sinestesia inexplicável, ainda mais para os padrões da época. O oito era visto por ele como uma mistura entre azul turqueza, pontos cor de rosa e dois arcos luminosos que se cruzavam. O quinze aparecia como uma fonte de amarelo cintilante e marrom, despejando sua cor num lago prateado. O trinta e nove era um imenso sovaco peludo. Ele resolveu que dividiria seu dom com toda a humanidade, todos os 456 seres-humanos existentes na época, na maioria, seus parentes. Após uma noite em claro de muitos cálculos e rabiscos na parede de pedra da caverna, ele terminou o que parecia ser o esboço detalhado de um caça F5, com o qual pretendia invadir a tribo rival, que morava para lá do rio, e ensinar uma lição para aqueles ladrões de vermes alimentícios. Juntou o maior número de homens que pôde e tentou passar as instruções para que começassem a construção ainda naquele dia, mas um dos integrantes da turba deu uma contra-proposta de que, ao invés de montar o caça, eles fizessem cocô nas próprias mãos e jogassem na cabeça do pessoal da outra tribo, idéia que fez bastante mais sucesso e foi colocada em prática imediatamente. Desmotivado com aquele primeiro fracasso, ele levaria mais alguns dias para voltar a usar seus dons matemáticos. Mas numa manhã bastante feliz, em que apenas uma perna, dentre todas as da tribo, havia sido amputada a dentadas por algum predador, ele se sentiu inspirado e inventou o computador pessoal. Montou um belíssimo PC, usando folhas de bananeira, lascas de pedra e um sapo vivo e chamou os amigos para jogar Tetris, mas sua invençao foi ofuscada, pois naquele exato momento, outro membro do grupo mostrava a todos a roda, objeto que acabara de inventar, muito mais fácil de manipular, com menos comandos e que nunca dava pau, o que acabou acontecendo com a criação concorrente, mesmo sendo esta equipada com a moderníssima versão de sistema operacional batizada de Windows 15000 A.C.. Foi então que ele percebeu que era um hominídeo à frente do seu tempo. Jamais seria compreendido por aqueles bruta-montes comedores de cérebro de macaco, pensava, enquanto degustava um cérebro de macaco. Ele calculou que, com um pouco de sorte, se passasse seu talento adiante copulando com o máximo de fêmeas possível (primas, tias, avó, etc), seus dons matemáticos e criativos talvez pudessem ser apreciados dali a oito mil, oito mil e quinhentas gerações. Poderiam até ser dons comuns, presentes na maioria da população, só dependia dele e de seus encantos como galanteador. Certa noite naquela era geológica, ele se aproximou de uma linda troglodita que contemplava o céu coçando o bigode e, após fitar o firmamento por poucos segundos, disse a ela, em linguagem primitiva de sinais: “tá vendo essas estrelas, broto? São trezentas e setenta e oito mil e quarenta e cinco, só nesse pedaço que a gente consegue ver, e não brilham mais do que os seus olhos”. Ela abriu a boca, mas ao invés de falar ou gesticular, abocanhou um inseto que passava. É claro, seu plano não deu certo, onde já se viu nerd comer alguém? E o resto é história, deu no que deu.

Escrito por Marcelo Nogueira às 01h35
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