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CONTO NATALINO
 O barulho abafado de asas batendo era o aviso que a menina esperava para se aproximar da lareira da velha casa onde vivia. Com a cabecinha tombada para o lado, ela podia observar o belo passarinho que descia pela chaminé e pousava na beirada do ninho - que montara numa reentrância da estrutura interna da lareira, várias semanas antes - para poder, com o pequeno bico, alimentar três minúsculos filhotes, que berravam de fome. Ela assistia a tudo bem quietinha, sem se mexer, para não assustar os protagonistas daquela cena que tanto gostava de presenciar diariamente. Mas a tranquilidade que antes sentia em seu coraçãozinho, agora parecia dar lugar a uma inquietação crescente. Era dezembro, e ela bem sabia o destino das lareiras num determinado dia daquele mês. Com uma inteligência aguçada, apesar da pouquíssima idade, calculava a menina que aqueles pobres filhotinhos deveriam ser incrivelmente frágeis, dado seus pequenos tamanhos e a aparência translúcida de suas peles. O ninho, podia observar bem de perto, não passava de um amontoado de pequenos galhos e folhas entrelaçados por bico, não por mão humana, coisa que deveria se desfazer ao mais delicado toque. Como poderiam, então, os integrantes daquela peculiar família sobreviver ao inevitável esbarrão que estava por vir, proveniente do corpo enorme e gordo de um senhor na descendente por tão apertado caminho? Não sobreviveriam, era fato, e ela sofria antecipadamente. Enviara, por ser este o único canal de comunicação conhecido, dezenas de cartinhas ao tal velhinho, avisando da presença do ninho e de seus habitantes, com recomendações de cautela ou até de uma possível rota alternativa, mas não recebera até agora nenhuma resposta ou qualquer sinal que indicasse ter o destinatário recebido a importante mensagem. Sua aflição só crescia, dia após dia. Até que a noite de Natal chegou, como era inevitável, e a menina sentou-se ao lado da lareira, com uma expressão séria como pouco se vê no rosto de crianças daquela idade, preparada para passar a noite inteira ali, caso fosse necessário. Seu plano emergencial, elaborado às pressas, consistia em gritar ao menor sinal de aterrisagem no telhado, com o máximo da força de seus pulmões - o que não era pouca coisa - para que o enorme visitante tomasse o máximo de cuidado ao descer. Era o que podia fazer, nada mais restava. A família inteira já havia chegado, e já estava ciente da questão, quando ela ouviu um sininho de Natal badalando. Rapidamente, gritou para dentro do vão: “Papai Noel! Papai Noel!”, mas não recebeu resposta. Eis que a porta se abre. A porta mesmo, de entrada. E por ela entra o Papai Noel, de roupa vermelha, barba branca e uma estranha jovialidade na pele, que não seria questionada, tampouco sua incrível semelhança com um primo mais velho da garotinha. Ela correu e abraçou o homem, não poderia estar mais feliz, por ver o velhinho e pela certeza de que os passarinhos estavam a salvo. Certamente, Noel havia lido suas cartas e por isso sensatamente optara por entrar pela porta. Presentes dados, hô-hô-hôs entoados, o senhor se despediu e saiu pelo mesmo lugar por onde entrou, deixando a menina livre para abandonar seu posto e aproveitar a festa junto das outras crianças. No dia seguinte, logo cedo, ela enviou uma outra cartinha, agradecendo pela consideração e sugerindo que o velhinho cogitasse a porta como opção definitiva de entrada, dali por diante. Afinal, assim como aquele, centenas de outros passarinhos poderiam ter a mesma idéia, justamente na época natalina, e estariam sujeitos aos mesmos riscos. Pensou em colocar no texto uma referência à circunferência abdominal do homem, para melhor argumentar que pela porta o processo seria, além de tudo, bem mais confortável do que pelas estreitas chaminés, mas acabou censurando essa parte. Achou que seria indelicado de sua parte.
Feliz Natal. Marcelo Nogueira.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 10h19
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