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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

INGREDIENTE SECRETO


Vinte anos de casados e finalmente eram dois absolutos desconhecidos. Ela mudou demais, ele mudou de menos, não sabiam exatamente em que ponto haviam tomado caminhos opostos, mas já fazia bem uns dez anos que o único assunto em comum entre os dois era a culinária. Ambos mantinham o hábito de cozinhar, o que faziam com muita competência, e este era o único tema em que parecia haver naquela casa algo próximo do amor, ou da estima mútua. Num dia qualquer, nenhuma data especial, ela preparou um jantar, montou a mesa mais bonita que o de costume, vestiu-se para a ocasião e chamou o marido.
_ Fiz uma receita nova pra você.
Ele se animou.
_ Nova?
_ Quer dizer, mais ou menos nova. É um salmão, mas eu pus um ingrediente diferente.
_ Não conta. Deixa eu adivinhar.
_ A idéia é essa.
Estava excitado. Se a intenção era reavivar um pouco da alegria do casal, ela havia acertado. O homem sentou-se e logo deu a primeira garfada. Mastigou lentamente, tentando extrair o máximo de eficiência de cada papila gustativa. Tinha uma expressão de sommelier.
_ Primeiramente (ele usava “primeiramente” quando o assunto era comida, achava que devia ser mais formal nessas ocasiões), está delicioso. Um primor.
_ Obrigada.
_ Tem mesmo um sabor especial aqui, alguma coisa que eu ainda não consegui identificar. Não é hortelã, é?
_ Não, não é hortelã.
_ Hum... Difícil, difícil...
Deu um gole no vinho. Provou mais um pedaço.
_ Muito bom... Alecrim não é.
_ Não.
_ Já sei! – hesitou - Coentro!
_ Quase.
_ Não é coentro? Achei que eu tinha adivinhado.
_ Passou perto, passou perto.
Ele ainda não havia encostado no risoto, que esfriava no prato, e que também parecia estar ótimo. Seu interesse se resumia ao tal ingrediente surpresa, que passara a ser uma questão de honra desvendar.
_ Não é alcaparra, com certeza. Salsinha também não, cebolinha, muito menos.
Ela parecia impaciente.
_ Come mais que você descobre.
Encheu a boca com um pedaço enorme. Mastigou, mastigou, pensou, meditou, até que seus olhos brilharam. Sentiu a garganta se fechar. Falou com dificuldade, porém entusiasmado, enquanto começava a passar mal.
_ Já sei! Descobri!
_ Fala.
_ É cianureto! Cianureto!
_ Acertou!
_ Eureka! Eureka! – tossia, estava vermelho, a voz cada vez mais rouca.
_ Parabéns, você sempre foi bom nisso. Que paladar!
_ Cianureto! Claro, tão óbvio.
_ Fiquei com medo de colocar demais e estragar a receita.
_ Não, tá perfeito. Harmonioso. Combinando com o limão e a pimenta dedo-de-moça. Você é uma chef exemplar – tossiu mais.
_ Obrigada, obrigada. Você é que é um gourmet exemplar.
Nesse momento ele já estava no chão, se contorcendo. Suas últimas palavras, que se esforçou ao máximo para conseguir pronunciar, foram:
_ Mas o risoto... ...nem provei... O arroz passou do ponto!
Ela socava o defunto com força.
_ Canalha! Canalha!

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 23h32
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