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ROMANCE
 Ele marcou um jantar inesperado numa quarta-feira à noite. Pelo tom de voz ao telefone, não seria exatamente romântico. Mesmo assim, na hora marcada, ou uma meia horinha depois da hora marcada, ela apareceu linda, chamando a atenção dos outros clientes do restaurante. O garçom puxou a cadeira. Ela sentou-se, elegante. O marido já estava lá, suando (ele costumava suar muito), parecia nervoso. Sob a luz da vela ao centro da mesa, ela segurou a mão dele e disse:? - Desembucha, Paulo. ? Ele limpou o suor no guardanapo de pano, olhou para os lados e pigarreou.? - Dessa vez você foi longe demais.? - O livro?? - Claro. O livro, essa droga desse livro. ? - Eu sabia. Você está misturando as coisas, Paulo. Eu sou uma escritora, é a minha profissão, você sabe disso.? - Claro que eu sei, eu sempre admirei o seu talento, foi o que aproximou a gente. Mas era bem diferente naquela época. Você escrevia contos eróticos, lembra? Aquilo, sim. Eu li um deles e pensei: “preciso conhecer essa mulher”. ? - Qual foi mesmo? ? - “Orgias na escada”.? - Era um conto romântico. ? - Eu lia tudo o que você escrevia. Os textos eram picantes, sensuais, não tinha ninguém melhor do que você para descrever uma, uma...? - Paixão?? - Putaria.? - Agora é putaria? Antes você dizia que era arte...? - Mas é arte! Claro que é! O que seria da arte sem a putaria? Inclusive, depois da gente se conhecer, os textos ficaram bem mais ricos. Você descrevia tudo o que a gente fazia, lembra? Teve aquele conto do metrô, o da obra abandonada, o do tanque do leão-marinho...? - Esse foi um dos melhores. ? - Aquilo era um fetiche para mim, quando a gente transava era como se todos os seus leitores estivessem olhando. Aí veio o primeiro romance, uma obra-prima.? - “Meu marido insaciável”. Imaginei que você fosse gostar.? - E o seguinte, então: “Um verão em 69”. ? - Nossas primeiras férias, em 1993.? - Depois vieram “Quanto mais, melhor”, “O que é possível no Kama Sutra”, “O martírio de um estrado”, tantos que eu nem lembro de todos. O nosso amor estava lá naquelas páginas, de verdade. Os gestos, os toques, os cheiros. Até que, de repente, você vem com aquele livro mentiroso...? - Você tem que entender, aquilo foi quando eu comecei a escrever ficção, eu expliquei isso na época. Era ficção!? - “Broxada em Marte”, Silvia? E desde quando marciano usa meias? Bem na hora do sexo?? - Eram quatro meias! Você nunca usou quatro meias! ? - Daí para a frente foi só esculhambação. “O amor já foi melhor”.? - Era um livro filosófico. ? - “Decepções amorosas de uma samambaia”. Samambaia! Você podia ter arranjado um disfarce melhor!? - Não era disfarce, era uma planta! Você é muito desconfiado!? - A planta era escritora!? - Mas ela era ruiva, eu sou morena! Não tem nada a ver!? - Eu relevei, aceitei seus argumentos por todos estes anos. Mas esse livro novo eu não vou aceitar!? - Por que não? Você não pode reprimir a arte!? - “O homem do membro pequeno”, não! Aí já é demais!? - É uma metáfora!? - Você não conseguiu me explicar essa metáfora até agora.? - É uma metáfora complexa, cada um entende o que quiser...? - Eu entendi muito bem. Dessa vez você subestimou a minha inteligência! E você que sempre disse que era de um tamanho bom... Eu quero o divórcio!? - Calma, vamos conversar!? - Nada disso! Eu não converso mais com você. Nem uma palavra. Senão depois vem o livro “O homem da conversa chata”. Chega! Acabou! Adeus! ? Saiu irritado, esbarrando nos garçons. Ela ficou na mesa atônita, antes de tudo, surpresa com aquela reação. Não imaginava que algum dia o marido pudesse perceber as sutilezas da sua literatura. Pegou o telefone na bolsa e ligou para o seu editor, que era também um amigo.? - Hélio? É a Silvia. Meu marido pediu o divórcio.? - Por causa do livro?? - Foi.? - Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Uma pena.? Um instante de silêncio nos dois lados da linha até que ela fala:? - Hélio, cancela o projeto.? - Como? Cancelar? Mas já está tudo encaminhado!? - Cancela. Agora.? - Pensa bem, Silvia! O seu marido já não pediu o divórcio? Para quê cancelar, então? Não vai adiantar nada! ? - Eu sei, eu sei, não é isso. É que, depois do que aconteceu, eu prefiro publicar aquele outro, que eu escrevi antes, sabe? Agora dá.? - É verdade, bem pensado, aquele é até melhor do que o novo. ? - Eu só quero fazer umas alteraçõezinhas, já faz algum tempo que ele foi escrito. ? - E o que eu faço, então? Espero você mandar as mudanças?? - Isso, espera. Quer dizer, por enquanto já pode mudar o título. ? - Por quê? Eu gostava tanto de “O amor e o vizinho”.? - Eu também gosto. Mas põe no plural.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h18
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