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DESAFINADO
 O professor de piano mandou chamar o pai e foi taxativo: - O menino tem ouvido absoluto. A princípio o pai não entendeu, mas o homem explicou que se tratava de um caso raro, um talento nato. O rapazinho seria, segundo o relato, capaz de reconhecer qualquer nota, proveniente de qualquer coisa, fosse instrumento, pessoa, animal ou objeto. Apertou uma nota aleatória no piano. - Diz aí, menino! - Ré sustenido. - Olha aí, tô falando. Bateu a tampa do instrumento sobre as teclas para continuar a conversa com o pai. O menino ouviu o ruído e emendou: - Si bemol. - É um gênio. Cuide bem do garoto. O pai saiu orgulhoso e, de passagem pela secretaria do conservatório, já tratou de inscrever o filho em mais dois instrumentos, além de um curso de canto lírico. Vai ser maestro, imaginava. E o menino não decepcionou, aprendia tudo com a facilidade de um músico de outros tempos reencarnado naquele corpo franzino. Mas o forte dele, mostrou-se mais tarde, era o canto. Uma voz estupenda, segundo a professora, uma senhora de idade avançada que cantava como soprano de ópera, mas que, falando, quase não se ouvia. Em pouco tempo, ele era solista do coral do bairro. Vivia com as bochechas roxas, cansativamente apertadas pelas mulheres da platéia que insistiam em ver fofura em talento tão erudito. Qual não foi a surpresa do pai - e aqui não há nenhuma pergunta, mas apenas a força da expressão - ao flagrar o menino, em casa, em seu horário de ensaio, desafinando terrivelmente num trecho de música que já cantava havia tempos, antes com perfeição? Não seria necessário ouvido absoluto para constatar o erro, apenas ouvido, tamanha a desafinação. E a ela seguiu-se outra. E outra. E em poucos versos, a música estava desconfigurada, totalmente fora de tom, doía na alma ouvir. O homem analisou que não deveria cobrar o menino e que talvez isso fosse sinal de que estivesse sobrecarregado. Interrompeu o ensaio e mandou o rapaz ir brincar. No dia seguinte, depois de largar o filho no ensaio do coral, posicionou-se embaixo da janela, sem ser visto, e se esforçou para tentar identificar a voz do rapaz. Mas não pôde perceber qualquer indício de desafinação, tudo soava perfeitamente harmonioso e belo. Infelizmente, o alívio durou pouco. Durante a semana, os casos de falhas musicais foram se multiplicando, a ponto de o telefone tocar por algumas vezes trazendo reclamações de vizinhos descontentes. Parecia mesmo que o garoto se esforçava por errar as notas, sendo capaz de cantar uma música inteira sem afinar por um compasso sequer. Até que, numa tarde daquelas, o rapaz ligou da casa de um amiguinho e pediu permissão para dormir lá, no que foi prontamente atendido. Secretamente, o pai não agüentava mais tanta desafinação e a ocasião caíra como uma luva, ou como um tapa-ouvidos. Aproveitou a noite de folga e combinou com a esposa um jantar num restaurante em que há muito tempo não iam, e foi justamente no caminho que se deu o caso. Pararam num sinal fechado e o homem ouviu, ao longe, a voz desafinada do menino. Estacionou o carro às pressas e foram seguindo o som, até que acabaram na porta de um karaokê tipicamente japonês, de onde puderam avistar o rapazinho em cima do palco, aos berros. A música acabou e o garoto desceu a escadinha lateral, onde foi recebido por uma menina de feições orientais que o esperava aplaudindo muito. Ele ganhou um enorme beijo no rosto e um abraço apertado desta que parecia ser sua nova fã, ainda mais entusiasmada que as velhinhas do coral. Então foi a vez dela subir ao palco. Cantava mal, muito mal. O pai soube depois que era um doce, uma flor de lótus, mas que não suportava uma coisa, a única capaz de tirá-la do sério: alguém que cantasse melhor do que ela. Tossiu em mi e apertou uma das bochechas do rapaz. Um gênio esse menino.
Opção 2 de imagem:
 (Ohhhhh...)
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 00h31
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