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HIPERTÉDIO
 Pouca gente viu quando aquele homem de penteado impecável despontou no topo do prédio, com semblante bastante entediado. Desprezando qualquer tipo de etiqueta com que costumam atuar os suicidas tradicionais, que ameaçam se atirar dezenas de vezes, chamam a atenção dos transeuntes, esperam pela imprensa, este simplesmente abriu os braços e se atirou, com o mesmo ar de tédio com que apareceu lá em cima. Voou feito pedra pelos mais de vinte andares até o chão e feito pedra caiu, mas não da maneira apoteótica como seria esperado, mas sim abrindo na calçada um cartunesco buraco no exato formato de seu corpo. Levantou dali como que decepcionado, sem um arranhão, limpou a roupa e saiu mal-humorado, para a total surpresa de quem viu a cena. Minutos depois, ele entra em sua casa e vai até um armário onde se encontram diversas ferramentas, há anos sem uso. Vasculha até que encontra uma enorme serra, dessas que se usa para tocar como violino em desenho animado, grande e cheia de dentes metálicos. Com convicção, apóia o próprio braço num balcão de madeira e começa a serrar o pulso, mas por mais improvável que seja, nada acontece à própria pele, mas sim à pobre serra, que se despedaça dente por dente, soltando faíscas. Depois de passar duas horas aspirando o cano de escapamento do carro ligado sem sentir qualquer alteração respiratória e mais outra hora dentro de uma banheira cheia d´água com um secador ligado mergulhado nela até que se queimasse o fusível da casa, saiu, irritado, em direção à linha do trem. Ali chegando, ficou parado entre os trilhos, esperando a próxima composição que se aproximasse, o que não tardou. O maquinista tocou a buzina o máximo que pôde, mas o esquisito homem de cara fechada continuou no caminho da locomotiva até o último momento, vendo o farol aceso se aproximando rapidamente, sem esboçar qualquer emoção. Apesar da tentativa do condutor de parar, o trem chocou-se com o cidadão a uma velocidade considerável, mas seu corpo sequer se moveu, ficando a máquina e seus vagões com toda a força daquele impacto. Descarrilhamento, fumaça e gente gritando para todo lado. O homem saiu dali sem um machucado sequer, mais mal-humorado do que nunca. Neste momento, surge no céu um emblema, projetado nas nuvens provavelmente por um imenso holofote em algum lugar da cidade. O suicida mal-sucedido, faz um gesto obsceno para o sinal no céu, utilizando-se de um único dedo, e vai embora resmungando. Super-herói depressivo é caso sério.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 23h30
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