Histórico
Ver mensagens anteriores
Votação
Dê uma nota para meu blog
Outros sites
F/Nazca Saatchi&Saatchi
Pá-Pum
Quase Nada Sobre Quase Tudo
Caderno de Vidro
Projeto Releituras
|
| |
 |
 |
Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário |
|
| |
VOCAÇÃO
 Voltou para dentro de casa a fim de buscar a carteira que havia esquecido e acabou fazendo pior: deixou a chave e bateu a porta. Era sábado de manhã e o fim de semana já começava bem. O celular, como é praxe em situações de emergência, estava com a bateria descarregada. O homem estava, como se diz por aí, no mato sem cachorro. Só lhe faltava mesmo aparecer um cachorro para piorar as coisas, um pitbull, desses que andam abandonando por aí (com muita justiça, diga-se, mas isso não se faz). Morava numa ladeira íngreme como o inferno, num bairro residencial, de modo que precisaria gastar toneladas de ATP (prestasse mais atenção na aula de biologia, caro leitor) caso quisesse alcançar o telefone mais próximo para tentar a sorte no serviço de informações da empresa telefônica tentando descobrir o número de um serviço de chaveiro. Sentou-se no banco do carro, largado aberto, já que a chave do mesmo encontrava-se no molho de chaves do qual fora separado, e tentou encontrar uma solução. Encontrou um clipe, esquecido no compartimento porta-tralhas localizado à frente do câmbio. Olhou o clipe, o clipe olhou para ele e ambos tiveram a mesma idéia absurda. Com cuidado, desdobrou o pequeno objeto metálico e, com a nítida imagem de MacGyver correndo ao som de Tom Sawer, dirigiu-se à fechadura da porta de entrada. Nunca havia feito nada parecido, não conhecia ninguém no mundo real que já tivesse realmente conseguido abrir uma porta utilizando-se de um clipe, mas, o que custa? Agachou-se até ficar com os olhos na altura da fechadura e teve uma sensação estranha, uma espécie de calafrio, uma excitação inusitada. Benzeu-se. Era um homem religioso, participativo na igreja do bairro, não gostava de calafrios. Percebia qualquer manifestação biológica independente de sua vontade como possível coisa do capeta, e sempre se benzia nessas ocasiões. Às vezes, nem o calafrio do xixi escapava, usava a mão desocupada para fazer o sagrado sinal. Mas voltemos à fechadura. Ele encaixou a pontinha do clipe no orifício da porta e foi guiado por uma espécie de intuição que não fazia idéia que tivesse. Ficou boquiaberto ao ver a porta se abrir após um ou dois toques precisos de sua habilidosa, mas até então anônima, mão. Ficou tonto com o próprio sucesso, era como se tivesse acabado de descobrir algo grandioso, essencial para sua vida. Antes de tirar qualquer conclusão precipitada, resolveu testar suas habilidades recém descobertas. Entrou, pegou as chaves, voltou para fora de casa e bateu a porta novamente. Com o auxílio do mesmo clipe, abriu-a em menos tempo do que da outra vez. Então, uma a uma, foi arrombando todas as portas da casa, sem fazer barulho ou danificar o miolo das fechaduras, inclusive as que estavam fechadas com duas voltas. Trancou tudo novamente e voltou para o carro. Era um talento nato, não restavam dúvidas. Decidiu ir mais longe. Jogou a chave no banco do passageiro e resolveu ligar o carro fazendo uma ligação-direta. Estava nervoso, mas suas mãos não tremiam, eram firmes como as de um cirurgião - se é que as mãos de um cirurgião são mesmo firmes, nunca pedira a um deles que parasse as mãos no ar para conferir, mas achou a comparação honesta. Fez a ligação-direta sem problemas, apesar de não ter nenhum conhecimento anterior sobre o funcionamento de um carro. Simplesmente o fez, confiando no próprio instinto. Benzeu-se novamente, enquanto dirigia o carro na direção de um parque da cidade. Queria um pouco de ar puro para pensar, mesmo que fosse o ar puro poluído dos parques da cidade. Sentou-se num banco e, enquanto divagava, percebeu que uma senhora sentara-se ao seu lado. Quase sem pensar, foi capaz de abrir a bolsa da mulher, pegar sua carteira e fechar a bolsa novamente, sem que ninguém se desse conta, mesmo estando o parque lotado de pessoas passando para lá e para cá. Olhou a carteira e devolveu para a incrédula senhora, dizendo que ela a havia deixado cair. Não entendia o que estava acontecendo, mas aquilo lhe dava um intenso prazer. Era um homem bom, temente a Deus, caridoso, gostava de ajudar o próximo. Mas como negar aquele talento estupendo, aquela vocação indiscutível ao crime que acabara de descobrir em si? Se Deus assim queria, quem era ele para abdicar do seu destino? O funcionário público Gustavo chegou em casa por volta das oito horas da noite e o que viu o deixou perplexo: na mesa da cozinha, encontrou um jantar completo, com entrada, prato principal e um bilhete avisando que a sobremesa estava na geladeira. Pratos, copos, talheres, guardanapo, tudo cuidadosamente organizado, assim como o resto da casa, que estava limpa, arrumada, cheirosa, um brinco mesmo. Gustavo morava sozinho e não tinha empregada. Outros moradores do bairro passaram a ter surpresas semelhantes. Sem que houvesse qualquer sinal de arrombamento, eram surpreendidos por jantares, roupas passadas, camas arrumadas, flores nos vasos, sem aviso prévio ou explicação posterior. Alguns carros tiveram seus problemas mecânicos consertados de um dia para o outro, pintura retocada, amassados reparados. Frequentadores do parque da região relataram encontrar suas carteiras, por diversas vezes, com mais dinheiro do que havia antes, e em alguns casos, com pequenas imagens de santos como Santo Expedito, São Pedro e Nossa Senhora Aparecida, cuidadosamente colocados nos pequenos plásticos destinados aos documentos. Uma das vítimas chegou a ter o velho RG atualizado para uma segunda via, com foto mais atual e plástico protegendo. Segundo as autoridades, o meliante continua foragido.
Opção de foto 2:

nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 10h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|
| |
|
 |
|