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PSICOTERAPEUTA
 Chegou ao consultório minutos antes do psicólogo. Estava adiantado ele, não atrasado o médico. O homem logo apareceu, cumprimentou o novo paciente com a gentileza cuidadosa desse tipo de profissional - talvez com o medo de que algum paciente os morda caso ajam de maneira errada - e mandou que esperasse numa ante-sala. Ele ficou lá, curioso com o novo ambiente. Reparou nas revistas, muitas e recentes, prestou atenção na mesa da secretária (ele tinha uma secretária!), na própria secretária - uma mulher jovem, bonita, timidamente vestida, com ar inteligente - na decoração moderna, nas caixinhas do som ambiente. Tudo muito novo e de bom gosto. Na hora marcada, pontualmente, foi chamado a entrar. O psicólogo, ou psicoterapeuta, como preferia ser chamado, indicou que se sentasse numa das enormes poltronas da sala e pediu licença para ouvir um recado na secretária-eletrônica, antes que começassem a sessão. Era um convite para uma palestra no Canadá. Fora boa a indicação do médico, pensava. Assim vai mal, assim vai mal... O homem se ajeitou na cadeira e começaram a falar. O cara é bom, se preocupava o examinado. Conduziu a conversa cuidadosamente, indicando o rumo dos assuntos sem invadir a privacidade do paciente naquele primeiro encontro. Deu alguns poucos palpites, todos certeiros, como se já se conhecessem há muitos anos. Pensou que aquele fosse, talvez, o melhor psicólogo, ou psicoterapeuta (ele merecia o respeito) que poderia ter encontrado na cidade. Ou no país. Ou, quem sabe até, no Canadá. Achou, inclusive, que o cara era bonitão, ou “boa pinta”, como seria o máximo que poderia adjetivar sobre qualidades estéticas masculinas. Quando estavam terminando a conversa, passados um ou dois minutos do tempo estipulado, sem qualquer reclamação do médico a respeito, o homem chegou à conclusão, que imediatamente repassou ao psicoterapeuta: - Olha, doutor, gostei muito, mas não vai dar certo. Você tem um outro psicólogo pra me indicar? O médico não perdeu o ar tranquilo. - Claro, eu indico outra pessoa, mas o que aconteceu? Você não gostou da sessão? - Adorei, foi ótima. O problema é esse. - Não entendi. - A sessão foi ótima, o consultório é novinho, você é inteligente, a secretária é gostosa, não vai dar certo. Eu preciso de um psicólogo pior, num lugar feio, sem secretária. - O problema foi a secretária? Ela foi grosseira? - Não, gentil feito um bezerrinho. Olha, doutor, eu venho aqui com o maior complexo de inferioridade, me achando o pior “loser” da face da terra, chego aqui, vejo isso tudo, essa prosperidade toda, tô arrasado. - Calma, não fica assim, vamos conversar a respeito disso. - Olha aí, você nem me enxota depois que acaba o tempo, é eficiência demais pra minha cabeça, me indica outro. Um bem ruim. - Espera, você tá se deixando levar pelas aparências. Eu não sou tão bom assim. - Ah, não? E a palestra no exterior? Eu nunca dei palestra no exterior. Nem no interior. E eu sou bem mais velho que você. - Eu posso ser um bom palestrante e um mau psicólogo. Já pensou nisso? - É nada, eu tirei a prova. Fiz a sessão inteira, você não deu um deslize. - Eu posso ser um bom psicólogo, mas ser ruim na vida pessoal, hein? Ahá! - Ah, é? E quem é aquela gostosa ali no porta-retrato, com todo o respeito? - Minha mulher... - E ainda tem a secretária, se quiser variar. Não vem com esse papinho, você é um vencedor! - Não sou! - É sim. Quero um “loser” como eu. Me indica aí. - Eu tenho mau-hálito! - Tem nada, tá conversando comigo há uma hora e eu me sinto numa plantação de hortelãs... - Tô ficando careca! - Com essa juba aí? Conta outra. - Tenho unha encravada! - Deixa eu ver! O psicólogo tirou o sapato correndo, mas não deixou de dobrar a meia cuidadosamente e colocá-la dentro do calçado antes de mostrar o pé. - Cadê? - Essa aqui, ó. - Não tem nada aí. - Acho que já curou... Mas tava encravada! Nojentona. - Olha aí, até a cicatrização é boa. Vencedor! Vencedor! - E a minha miopia? - Cadê os óculos? - Eu ronco! - Grande coisa... - Tenho pau pequeno, quer ver? Quer ver? - Não, obrigado, só me indica um psicólogo, tá certo? O médico se acalmou, soltou o zíper da braguilha e tentou retomar o ar tranquilo. - Desculpe. Eu desisto. Vou indicar um mau profissional pra você. - Péssimo, de preferência. - Tudo bem, tudo bem. Abriu uma agenda, procurou algum nome e anotou o número num papel, que entregou ao paciente. - Toma, liga pra esse aqui. Era meu aluno de mestrado, péssimo, burro feito uma porta. - Aluno de mestrado? Isso é o pior que você consegue? - Pode ligar sem medo. Eu garanto que você vai sair de lá pior do que entrou. - Ótimo. Muito obrigado, viu. - Você não quer repensar? Eu posso te ajudar. - Não, é muita humilhação. Mas obrigado por tentar. - Me dá uma chance. Mais uma sessão pelo menos? - Não sei... - Por favor? Eu me esforço pra ser pior. - Você não consegue... - Me deixa tentar. Toca o telefone, a secretária atende e fala alguma coisa. Depois, grita para o psicoterapeuta: - Doutor, é da faculdade! Querem dar um prêmio pro senhor! O paciente se levantou e saiu correndo, parece que chorando. A secretária recebeu uma bronca leve, mas com todo o respeito. Era um gentleman, além de tudo.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 12h14
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