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DESLIGANDO
 O mundo pode acabar neste exato momento, com o choque de um imenso meteoro, destes que tantas vezes, sabemos, já atingiram nosso planeta (os dinossauros que o digam). Uma nova era glacial pode se iniciar, uma guerra mundial, um ataque alienígena. As reservas de água potável podem se extinguir e a camada de ozônio está nas últimas. Mediante um panorama tão avassalador, não é exagero dizer que tudo o que nos mantém confiantes e disputando uma vaga no estacionamento do shopping com afinco é a rotina. Esse eficiente instrumento de paz interior que nos traz a confortável sensação de que tudo é previsível, simples e duradouro. As pessoas reclamam da rotina por rotina, nada mais. Sem ela, estariam desesperadas, completamente perdidas, ou, como disse Nelson Rodrigues, “de quatro, urrando no bosque”. Tudo o que ele fez foi sair de férias: trinta dias. E para piorar, deu tudo certo: fez sol, não faltou água, o dinheiro durou e aconteceu que ele acabou se desligando por completo de tudo. No fim do período estava com a pele escura e um leve sotaque nordestino. Largou as malas na sala e sentou-se no sofá, esperando a mulher voltar do trabalho. Demorou para encontrar o botão de ligar a TV no controle remoto - há um mês não via televisão. Se ajeitou no sofá para ficar mais confortável e começou olhar à sua volta, prestando atenção pela primeira vez aos detalhes daquele lugar onde vivia há três anos, agora como um turista da própria casa. Via uma decoração impessoal, feita às pressas. Um quadro na parede que nunca havia reparado e que, pela poeira, não era novidade no ambiente. De repente, um cachorro começou a latir, num quintal. A casa tinha quintal, não lembrava. E cachorro. Tentou conversar com o animal, para acalmá-lo, mas ele latia cada vez mais alto. Se ao menos lembrasse o nome do bicho... Do lado de fora da casa, a mulher separava a chave para abrir a porta da frente, quando ouviu os latidos. Encostou a orelha na porta e ouviu um homem lá dentro, falando com sotaque nordestino. “Um ladrão!”, pensou, sem um pingo de preconceito, como todo brasileiro. Conseguiu ver, por um vão na cortina, um rapaz de pele escura tentando atacar seu Golden Retriever. Voltou para o carro, sacou o celular e chamou a polícia. (Não precisava entrar no carro, mas parece que as mulheres se sentem melhor telefonando de dentro de um. Já percebeu a quantidade delas que dirige falando ao celular? Dizem que do outro lado estão os maridos falando “agora a segunda, engata a segunda!” Teoria machista que eu não endosso, claro). A polícia chegou quarenta minutos depois. Se quisesse, o marido poderia ter roubado todos os próprios itens de valor. Um policial arrombou a porta com uma pezada, coisa que adorava fazer, até quando o chamado era para salvar gato preso em árvore, mas o marido conseguiu fugir pelo quintal, assustado. Não foi muito longe, já que não tinha prática no assunto, e logo estava dentro de um camburão. A mulher foi chamada à delegacia e reconheceu o marido imediatamente – como o ladrão que invadira sua casa – e o homem foi preso. Ele se sentou no canto da cela, respirou fundo, e ficou esperando o tempo passar. E sua pele clarear de novo. Para poder, desbotado e estressado, voltar pra casa e ter sua velha vida de volta. Férias outra vez, só se for em Cubatão.
Escrito por Marcelo Nogueira às 10h07
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