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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

MILAGREIRO


- E agora, pelo poder em mim investido, eu vou fazer esse cego enxergar!
- Cego? Que cego, rapaz? É deficiente visual!
- Sei, mas é pro pessoal entender.
- Não tem respeito, não? Cego...
- Tá bom, desculpa. Agora eu vou fazer esse deficiente visual...
Foi interrompido por um homem aos berros.
- É, agora pouco esse cara me chamou de aleijado!
- Mas eu fiz você andar! Você tá andando, olha aí!
- Mas você me chamou de aleijado, nada paga a humilhação! Preconceituoso!
Outra voz se levantou na multidão.
- E me chamou de anão!
Alguém questionou.
- Mas você tem um e oitenta...
- Eu era anão. Quer dizer, era um cidadão-verticalmente-desprivilegiado. Ele me fez crescer, esse preconceituoso aí.
- Gente, desculpa, eu só queria fazer uns milagres, não queria ofender.
- Mas ofendeu! Eu vou processar você, viu. Fique sabendo. Mas antes termina o milagre aí. Faz eu enxergar, pra eu ver a cara de quem eu vou processar.
- Tá certo – passa a falar alto, para a pequena multidão - cego! Jogue os óculos escuros.
O cego tira os óculos e joga no milagreiro, com força.
- Ai, ai, não é pra jogar em mim!
- Cego, não, já disse! Deficiente-visual! Olha, eu tô enxergando!
- Então, você tá enxergando! Não tá feliz? Vai me processar por quê? Você é um ex-cego! Um ex-cego!
- Ex-deficiente-visual!
- Vamos lá, vamos pegar esse cara! Abaixo o preconceito!
Comecou levando um chute do ex-aleijado e teve que correr um bocado para fugir do ex-anão, que agora era muito maior do que ele, enquanto um ex-mudo ficava só gritando:
- Bate nele! Bate nele!


Escrito por Marcelo Nogueira às 14h54
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PONTINHOS


Deu uma última dentada no biscoitinho com amendoins incrustados que acompanhava o café e assinou o cheque. Ouvira falar que, dependendo do valor do documento, a assinatura tanto fazia, que o caixa do banco pagaria do mesmo jeito, sem nem olhar. Resolveu testar. Fez uma assinatura completamente diferente da sua, com grandes curvas entremeadas por garranchos, de um tamanho exagerado, e finalizou com quatro pontinhos, por achar que daria um toque de charme. Em pouco tempo o garçom pegou o pratinho com a conta e o cheque, agradeceu e saiu. Sentia-se um espertalhão, como se estivesse aplicando um verdadeiro golpe no restaurante com aquela assinatura inventada que, na prática, teria o mesmo efeito da original. Mas o garçom parou no meio do caminho, olhou o cheque e fez uma expressão de surpresa. Virou para trás e encarou o cliente, que gelou. Fora descoberto. Pensou em sair correndo, mas os músculos não obedeceram. O funcionário levou o cheque até o maitre, que arregalou os olhos e pegou um telefone. O homem concluiu que o correto seria sair de fininho, para chamar menos atenção. Mas quando estava na calçada, já aumentando o ritmo das passadas, uma limousine parou e de dentro saíram dois enormes seguranças, vestidos de preto, com previsíveis óculos escuros, que o conduziram gentilmente para o interior do carro. No caminho, foi informado de que fora identificado, pela assinatura, como o líder secreto de uma seita muito mais secreta, há algum tempo desaparecido. Disseram que chegaram a temer pelo pior, que estavam muito felizes em vê-lo bem de saúde e que agora ele podia relaxar, estava entre amigos. Pararam na frente de um casarão espetacular, para onde foi levado e tratado como um rei. E por dois anos inteiros não disse uma palavra sobre o fato de não fazer a menor idéia do que estava acontecendo, apenas aproveitou. Pedia o que queria e era automaticamente atendido. Aos poucos, foi retomando o contato com amigos e parentes, afinal, queria ter alguém para quem se mostrar. A vida havia sorrido para ele. Comprou carros, fez viagens por todo o mundo, andava de helicóptero até para ir à padaria. Mas um dia, num ato-falho – já que desde que fora “descoberto” não precisou desembolsar um tostão por nada do que consumia – preencheu um cheque para pagar um jantar. Escreveu um valor qualquer, tão alto quanto ele mesmo já estava depois de algumas taças de vinho, e, como achou ser mais coerente, resolveu tentar refazer a assinatura inventada. Saiu-se até que bem, poderia dizer alguém que comparasse os dois rabiscos, só que desta vez colocou cinco pontinhos, ao invés de quatro. Um pontinho só de diferença. E assim que saiu do restaurante foi abordado por homens encapuzados, que o amordaçaram e o levaram num furgão todo preto, de vidros escurecidos, que andou sem pausas por muitas horas. Ao pararem, o homem foi arrastado para um lugar escuro e úmido, onde acorrentaram seus braços e pernas e o prenderam, de pé mesmo, na parede de uma espécie de masmorra medieval. Dias mais tarde, soube que fora identificado como o pior traidor da história da seita secreta, pela assinatura, claro. Cinco pontinhos inconfundíveis. Ao que tudo indica, ele ainda está lá, na mesma posição, há pelo menos um ano e meio, a pão e água. A água, inclusive, tem que pegar por esforço próprio, esticando a língua até um filete proveniente de um vazamento na parede. Rumores indicam que está escrevendo um livro de memórias da prisão, com a ajuda de um carcereiro, que coloca a caneta na sua boca e segura o papel na frente do seu rosto. Ótima literatura, na opinião do próprio carcereiro, que já se prontificou a escrever as orelhas da publicação. Mas o que o prisioneiro realmente almeja com sua obra é ter a oportunidade de uma noite de autógrafos, onde vai colocar em prática a assinatura de seis pontinhos. Teve a informação, de fonte segura, de que se trata do código secreto dos membros de uma seita de loiras contorcionistas ninfomaníacas. Se tudo der certo, elas virão resgatá-lo em breve. A não ser, é claro, que ele erre e coloque um pontinho a mais, totalizando sete, o que o identificaria inapelavelmente como um saco de batatas do Tenesse, e poderia lhe ocasionar o contratempo de ter o corpo cortado à palito e frito em óleo de soja, até o ponto da crocância. Só o tempo dirá.

Escrito por Marcelo Nogueira às 10h41
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UM DIA PERFEITO (PARA UM BONECO DE VENTRÍLOQÜO)


O boneco se virou na direção do ventríloqüo e falou:
- Você é um péssimo ventríloqüo. O pior que eu já vi.
Disse isso de próprios pulmões, sem que o ventríloqüo o quisesse. Sequer estavam no palco.
- Como assim? Tá falando comigo?
- Tá vendo outro péssimo ventríloqüo aqui?
- Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloqüo. Eu venho de uma longa linhagem de ventríloqüos, sabia?
- Pois é, o problema é justamente esse. O seu tio é ventríloqüo, seu tio-avô era ventríloqüo, que seja, mas você não é. Entenda isso, você não precisa ser ventríloqüo só porque o seu tio é ventríloqüo.
- Ele me criou, é como um pai para mim, eu devo isso a ele. E você é um boneco muito abusado para o seu tamanho, isso não é assunto seu.
- Claro que é assunto meu! Sou eu que tenho que encarar o público todos os dias olhando feio para mim. Fora o fato de ter que sentar no seu colinho, mas isso a gente discute depois. O fato é que você é péssimo, cara, é uma vergonha para o seu tio.
- Não sou tão ruim assim, você está exagerando.
- Como não? Você não consegue fazer minha boca abrir e fechar no ritmo do texto, não serve nem para dublador de desenho animado.
- Você já viu minha imitação do Pato Donald? – disse, imitando o Pato Donald.
- Tá, essa é boazinha. Mas desista da ventriloquia, você não tem a “cancha”.
O ventríloqüo suspirou. Depois de um breve silêncio, confessou.
- É, você tem toda a razão, sou uma porcaria de ventríloqüo mesmo. Mas como eu vou dizer isso para o meu tio? Vai ser uma decepção terrível para ele, sem contar o boneco dele, que vai ficar arrasado.
- Ele sabe. Os dois sabem. Vai ser um alívio, acredite em mim.
- Bom, amanhã eu falo então. Obrigado pela sua sinceridade, boneco.
O homem disse esta última frase da mesma forma que disse todas as outras: sem mexer a boca, embora quem presenciasse a cena tivesse plena certeza de que o som emanava de seu rosto. Estava dormindo o tempo todo. O boneco virou para o lado e voltou a dormir também, orgulhoso da própria apresentação. Era um boneco-de-ventríloqüo ventríloqüo, vinha de uma longa linhagem de bonecos-de-ventríloqüo ventríloqüos e era muito, muito melhor do que o homem e o tio juntos.

O tema "um dia perfeito" foi proposto por uma corrente de blogs gentilmente passada a mim pelo Zé Luiz, do blog Pá-Pum. Se você tem um blog que quer ser o continuador, com direito a um link aqui, deixe uma mensagem. Ah, a modernidade...


Escrito por Marcelo Nogueira às 10h11
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