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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

PONTINHOS

(O conto "Pontinhos" foi republicado mais acima)

Escrito por Marcelo Nogueira às 19h20
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LOGOTIPO


Saiu o novo e primeiro logotipo do Contos do Intervalo, feito pelo Alexandre "Rato" Pagano.

Valeu, Ratungas.


Escrito por Marcelo Nogueira às 19h15
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IMPROVISO


O carro parou rente à janela da cabine. O vidro praticamente espelhado (noventa por cento de transparência, segundo a especificação na janela) baixou e o motorista cumprimentou a atendente, tímido:
- Boa noite.
- Boa noite.
Ela olhou o interior do veículo, tentando disfarçar a curiosidade, e constatou que o rapaz estava sozinho.
- O senhor está esperando mais alguém?
- Como?
Neste momento, outro carro parou atrás, com um casal dentro. A atendente olhou, desconfiada.
- Olha, nós não permitimos suruba, viu, se o senhor quiser, tem um outro motel aqui perto que...
- Não, eu tô sozinho, não tô esperando ninguém. Eu queria falar com a Bia, uma outra recepcionista, sabe? Ela está?
- Não, não está, eu posso ajudar?
Olhou para os lados, preocupado.
- Não, obrigado. Tinha que ser com ela mesmo. Você sabe quando ela volta?
Era tarde da noite. Ficou receosa em dar maiores informações sobre a amiga a um estranho e respondeu secamente.
- Olha, moço, ela não está. Vai querer um quarto ou não vai?
O rapaz parecia confuso, não estava preparado para aquela situação.
- Se não vai querer, a saída é por ali, não precisa pagar.
Ele respirou fundo.
- Sabe o que é? Eu vou dizer a verdade. Acontece que eu vim aqui ontem, com a minha mulher, eu sei, é até feio dizer, mas acontece que a gente acabou trocando uns olhares, eu e a Bia. Sei que o nome dela é Bia porque vi no crachá. Uma ruiva, né? Ela é muito bonita, a senhora sabe, eu não tive como evitar.
- Sei...
- Depois, quando eu saí, ela escreveu no verso do canhoto do cartão de crédito: “volta amanhã, sozinho”. Eu voltei. A senhora me desculpe a sem-vergonhice, mas eu fiquei apaixonado pela Bia, preciso saber, ela volta ainda hoje?
A mulher olhou com mais atenção para o cliente e achou o rapaz bonito. E canalha, atributo ainda mais valorizado por algumas mulheres.
- Não, ela não volta hoje. Nem amanhã. Nem depois de amanhã. Não trabalha mais aqui, foi demitida.
Ao ouvir isso, o homem ficou inconformado. Havia inventado uma desculpa para a mulher, que não ficou totalmente convencida, e arriscara o casamento indo até lá. Poderia ser visto por alguém conhecido, imagine (o ursinho com ventosas no vidro de trás não era muito discreto). Estava se sentindo culpado e envergonhado por se arriscar a enfrentar um divórcio apenas por ter dirigido até a porta de um motel sozinho e voltado para casa de mãos abanando. Por mais que não tivesse cometido nenhum delito de fato, como explicaria a situação para a mulher, se fosse descoberto? Sonambulismo? De repente, numa decisão inesperada, resolveu que não perderia a viagem. Se fosse incriminado, seria por um bom motivo. Mudou o tom de voz.
- Uma pena, coitada. Mas quem sabe não foi o destino? Se não fosse isso, eu nunca ia saber que ela não era a funcionária mais bonita daqui.
Uma cantada de quinta categoria, além de mentirosa, já que a mulher em questão era feia, de uma feiura comum, que não valeria a pena nem pelo pitoresco da coisa. Mas ele estava decidido, e ela retribuiu.
- Ah, você acha? Muito obrigada.
Sorriu, sem graça, acentuando a desarmonia do seu rosto. Ele ainda deu uma espiadinha dentro da cabine, para ver se não havia uma terceira opção, mas ela estava sozinha. Então, continuou.
- Sabe, tava aqui pensando, a gente, sei lá, podia bater um papo, se conhecer melhor. Você parece ser uma pessoa legal e eu tô precisando conversar com alguém, sabe?
- Eu? Conversar? Não sei... É muito arriscado, o meu chefe pode chegar – disse, já pegando a chave da suíte “presidencial”, discretamente.
Largou a recepção vazia e entrou no carro (depois de gritar para o casal que esperava: “tá lotado. Volta amanhã.”). Foram conversar numa cama redonda. Podia ser demitida, estava arriscando o pescoço, mas era uma oportunidade única, ela sabia - trabalhava num local rico em espelhos. Por sorte, faltavam apenas dez minutos para as onze horas, fim do seu expediente. Logo a Bia voltaria do vestiário, onde estivera se trocando até aquele momento, para assumir o cargo, como todos os dias. A Bia, ótima funcionária, ruiva, bonita, sempre com o crachá preso ao uniforme bem passado, a maquiagem impecável. A Bia não contaria para ninguém, seria incapaz, tinha certeza. Mais do que isso, acobertaria a colega, daria uma desculpa caso o chefe aparecesse antes da hora. A Bia era demais. Gente fina mesmo. Confiava cegamente na Bia. Afinal, eram muito, muito amigas e amiga é para essas coisas.

Escrito por Marcelo Nogueira às 15h24
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