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FEIJOADA
 A idosa mulher, mãe de vários, avó de muitos mais, havia décadas conseguia a proeza, invejada pelas amigas, de reunir a enorme família todos os domingos para comer sua feijoada. Para isso, ela passava boa parte da semana ocupada na preparação do prato, escolhendo os ingredientes, deixando algumas carnes de molho e fazendo coisas que ela não revelava, só revelava que fazia, a fim de aumentar o mito. Muitos garotos de hoje nunca viram ou comeram uma feijoada como aquela, feita do jeito antigo, com todas as partes da anatomia suína que fazem as crianças e adultos atuais torcerem o nariz - o próprio, não o do porco - mas que, incógnitos, provavelmente fariam os mesmos lamberem os beiços. E o caçula da família estava realmente fazendo isso, lambendo os beicinhos imundos, quando a mãe perguntou, sem saber o que causaria o comentário, se ele queria mais orelha. O garoto, a princípio, não entendeu. Riu e disse que não precisava, estava contente com as duas que tinha. Ela perguntou de novo e desta vez teve que explicar que aquilo que ele acabara de comer com tanto gosto era a orelha de um porco, de onde também vinham quase todas as outras carnes do prato. Sim, o porquinho, aquele mesmo da história, que acabara de construir uma casa de tijolos e que agora não poderia usufruí-la por culpa do menino. Vomitou na hora, no próprio prato, e fez força para vomitar mais. Queria botar para fora todas as feijoadas que já comera na vida. A mãe chamou o garoto num canto e achou que era hora de uma conversa séria. Contou, com toda a didática que tinha - o que não era muita coisa - que praticamente tudo o que o rapazinho mais gostava vinha do corpo de um animal. Que o frango, o peixe, o bife outrora ciscavam, nadavam, mugiam e agora eram fatiados pelo menino, sem escrúpulos. O resultado foi que o filho não conseguiu dar mais uma garfada sequer no almoço. Sentia pena até do pobre feijãozinho, pois lembrou que já havia plantado um pé num algodão em casa. A avó, com toda sua experiência com crianças, entendeu e disse que tudo bem, que não ficaria ofendida, mas na saída disse à mãe que desse umas palmadas para o garoto largar de frescura. Dali até à noite ele não comeu mais nada. A mãe não insistiu. Achou que, quando acordasse, o menino nem lembraria mais da cisma. Mas lembrou, e durante todo o dia seguinte não colocou um pedaço de coisa nenhuma na boca, com medo de estar sendo o responsável por um assassinato. Passou uma viatura da polícia na frente de casa e ele tomou o maior susto. O máximo que aceitou beber foi refrigerante e, mesmo assim, só porque a mãe disse que era feito de cola, e cola, ele conhecia do colégio, não era bicho. O tempo foi passando e, naturalmente, sua fome foi se tornando cada vez maior, até ficar insuportável. A mãe já estava ficando preocupada, mas sabia que aquilo não tinha como durar muito. E, de fato, quando o garoto já estava se sentindo fraco e desesperado, algo falou dentro dele. Além do ronco do seu pequeno estômago, ele pôde ouvir seus instintos gritando. Os instintos de um predador faminto. E finalmente entendeu tudo. A frescura passou naquele momento, mas a mãe teve bastante trabalho para fazer o menino soltar a perninha do cachorro, que latia feito louco com a coxa presa entre os dentinhos afiados.
P.S.: Este conto é desaconselhável para vegetarianos. Ops, tarde demais.
Escrito por Marcelo Nogueira às 14h27
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