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O HINO DAS PROPAROXÍTONAS


Outro dia, enquanto cantava o Hino Nacional no caminho para o trabalho (você não imagina o que as pessoas fazem na intimidade dos seus automóveis), descobri o motivo de a letra transmitir ao ouvinte tanta pompa e grandiosidade. O mérito, ou culpa, é das proparoxítonas. A língua portuguesa é formada, em grande parte, por oxítonas e paroxítonas - não o culpo caso nunca tenha reparado. São relativamente raras as proparoxítonas, aquelas palavras que, como a própria “proparoxítona”, têm como tônica a antepenúltima sílaba. Não, não resolvi me tornar concorrente do Pasquale, é só para enriquecer a narrativa. O caso é que, como bom parnasiano, o Joaquim Osório Duque Estrada era um metódico. Antes um “fúlgido” na letra do que ferir a métrica. Se você reparar bem, existe um trecho da melodia, que se repete, em que o primeiro e o terceiro versos sempre terminam em proparoxítonas, pelo próprio arranjo da música. Traduzindo: para encaixar e a letra não ficar capenga em relação ao ritmo. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas (olha aí)/ de um povo heróico o brado retumbante. / E o sol da liberdade em raios fúlgidos (mais uma) / brilhou no céu da pátria nesse instante...”. A princípio, o Osorião deve ter achado o máximo. As proparoxítonas eram charmosas, musicais, requintadas. Acontece que lá pela quinta proparoxítona, ele começou a ficar sem opções. Por isso, não é de se estranhar que surja no meio do hino coisas como “lábaro” e “vívido” Dizem que uma das estrofes abandonadas continha as palavras “lâmpada” e “xícara”. Uma outra, que combinava com maestria “prostíbulo” e “clítoris”, ele só aceitou tirar quando foi convencido de que o correto era clitóris. (Boatos maldosos dizem que ele não entendia muito do assunto). Minha teoria é a de que, pressentindo ser esta a grande dificuldade do trabalho, o Joaquim Osório tenha começado encaixando, a esmo, proparoxítonas por toda a música. Só depois veio o resto do texto. Isto também explica algumas imagens aparentemente desconexas que aparecem na obra, como o terrível céu “risonho”. Primeiro veio o “límpido”, uma proparoxítona exemplar. O que mais poderia ser límpido além do céu? Colocou: “formoso céu límpido” (era um parnasiano). Ficou sobrando um espaço. Ele olhou para os lados, para ver se ninguém estava espiando, e preencheu: “risonho”. Tudo culpa das proparoxítonas.

Escrito por Marcelo Nogueira às 11h43
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