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A BOMBA ATÔMICA
 A viagem era a negócios e ele não tinha levado quase nada. Só o essencial para passar o dia, ir à reunião e voltar para o hotel, o que se resumia a algumas roupas e à escova de dentes de viagem, uma escova que, quando desmontada, ocupava metade do espaço, economizando assim incríveis cinco centímetros de espaço na mala. A reunião acabou antes do esperado e logo ele estava no quarto, assistindo TV na cama. De repente, ouviu um som estranho, mais até do que o da banda revelação da emissora cujo clipe assistia por pura falta de opção (tentara o canal "adulto", mas, como sempre, estava bloqueado). Este outro som vinha do próprio ventre. Tentou fingir indiferença, para ver se a barriga desistia, mas não pôde deixar o segundo chamado passar despercebido. Sabia que aquela coxinha no aeroporto havia sido um risco, que decidira encarar heroicamente, em nome de uma fome desesperadora. Mas o que o deixava preocupado agora não era a possibilidade de ter contraído uma amebíase ou coisa pior, o motivo da sua inquietação era o fato de não estar tecnicamente preparado, ou seja, não tinha nada para ler. Seu intestino funcionava de acordo com algumas regras claras: lugar conhecido e alguma coisa para ler. Na falta de um, o outro tornava-se absolutamente indispensável. Isto acabara tornando-o expert em instruções de uso e especificações técnicas de produtos de banheiro. Quando não conseguia uma revista ou livro a tempo, lia as embalagens de loções pós-barba, condicionadores de cabelos, bronzeadores ou o que conseguisse alcançar no armário. Certa vez, o filho de alguém passou mal por engolir desinfetante e ele foi capaz de informar para o médico toda a composição química, além de citar o endereço da fábrica e o aviso de “manter longe das crianças”, olhando, inquisitivo, para o pai do menino. Mas neste dia não havia nenhum tipo de literatura, tradicional ou industrial, à vista. No banheiro do hotel, só encontrou aqueles sabonetinhos e xampuzinhos de praxe, com aquelas malditas explicações resumidas que não renderiam nem um minuto de boa leitura. Continuou vasculhando o quarto e então percebeu, surpreso, que havia um livro na gaveta do criado-mudo. Não era seu, talvez de algum hóspede esquecido, mas, naquela situação, pensou, caíra do céu. Pegou a publicação e foi correndo se trancar no banheiro. Sentou-se e pôde comprovar a procedência divina do livro: era uma Bíblia. Claro, todo hotel que se preze tem uma Bíblia, sabe Deus por que motivo, apesar de não explicar para ninguém, nem na própria Bíblia. Não era um homem religioso, mas sentiu-se contrangido em abrir o livro. Ler a Bíblia numa situação daquelas parecia uma blasfêmia, uma falta de respeito, teria que se virar sem o livro mesmo. Largou o objeto em cima do bidê e tentou se concentrar. Acontece que o intestino resolveu reivindicar seus direitos: sem leitura, sem cocô. Estava nas regras. E ainda deu uma pontada, daquelas bem agudas, para demonstrar sua indignação. Sem outra alternativa aparente, pegou o livro mais uma vez. Deus haveria de perdoar, afinal, foi Ele quem resolveu colocar um intestino na sua criação. Talvez até tivesse um, já que fez o homem à Sua imagem. Mas ler o quê? O Gênesis? Adão, Eva, a maçã... Não, maçã prende. O Novo Testamento? Os Salmos? Que situação. Então abriu na página do Apocalipse. O fim de tudo. A destruição. A catástrofe. Pensou na crise do Oriente Médio. No Bush. Na bomba atômica. E foi bosta para todo lado.
Escrito por Marcelo Nogueira às 13h57
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