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POR FAVOR, REPARE NA BAGUNÇA
 Não existe oportunidade melhor na vida de um bisbilhoteiro do que a época de procurar apartamento. A instrução tão usada por anfitriões para que suas visitas não reparem na bagunça de suas casas não só não pode ser usada como é praticamente invertida. Tudo o que você vai fazer na casa dos outros nessas ocasiões é justamente reparar na bagunça, cutucar os azulejos, abrir os armários, criticar a fórmica da cama do filho. E eles põem fórmica na cama do filho. Abrem banheiro dentro da cozinha, colocam pia no quarto, montam altar na sala. A casa dos outros é um território inexplorado e surpreendente. As pessoas vão vivendo e, sem a supervisão de desconhecidos honestos, vão se tornando estranhamente autênticas, sem se darem conta disso. Basta observar a naturalidade com que aquela senhora nos mostrou seu apartamento, onde coabitavam, na mesma estante da sala, um peixe morto, boiando provavelmente há alguns dias de barriga para cima junto de quantidades marítimas de limo, uma panela com restos de comida, certamente preparada enquanto aquele peixe ainda vivia seus dias de juventude e uma TV. O que mais chamava a atenção era a TV, que não combinava com nada, estava destoando. Imagino a mãe do homem-bolha tentando vender a casa, falando com o possível comprador. - Esta é a sala. Ali é a cozinha. Essa é a bolha onde vive o meu filho. Fala oi pro tio, filho. O menino fica, junto com os armários, tá? A bolha é embutida, sabe, não dá pra levar. É só colocar comida uma vez por dia naquela portinha que ele quase não dá trabalho. Enfim, ainda não nos decidimos por nenhum apartamento. Estamos bastante em dúvida entre o que tem o tobogã na banheira e o que usaram um dos quartos para fazer um viveiro. Estou pendendo para este último, mas ainda não sei se me acostumaria a descer para o térreo pelo cano dos bombeiros.
Escrito por Marcelo Nogueira às 15h39
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