Histórico
 Ver mensagens anteriores



Votação
 Dê uma nota para meu blog


UOL
Outros sites
 F/Nazca Saatchi&Saatchi
 Pá-Pum
 Quase Nada Sobre Quase Tudo
 Caderno de Vidro
 Projeto Releituras


 
Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

O REI DA ACADEMIA


A recepcionista já havia reparado, mas pouca gente na academia tinha percebido, entre um abdominal e outro, que aquele baixinho, um dos mais assíduos dentre todos os alunos, estava mais gordo atualmente do que quando se inscrevera, um ano atrás. Ela tinha, inclusive, a impressão de que ele ficava cada vez mais ofegante ao subir a pequena rampinha da entrada. A garota sabia, por experiência, que eram muito comuns os casos de alunos que se matriculavam, pagavam meses adiantado e, tempo passado, continuavam com a mesma forma física deplorável de antes. A diferença é que estes se empenhavam em não freqüentar a academia (supunha mesmo que era este tipo de cliente que, no final das contas, garantia os lucros da empresa), o que não era o caso do baixinho. Aquele não faltava um dia, de segunda a segunda, chovesse ou fizesse sol, e tantos mais clichês que designem frequência initerrupta que você possa imaginar. Ela o observara nos últimos dias com mais atenção, andava intrigada com o caso dele, além de um pouco entediada com o trabalho. Naquela manhã o homem chegou, deu um bom dia geral como sempre e passou pela catraca. A garota esticou o pescoço para acompanhar seu trajeto até o vestiário. Decidida a investigar, deu uma desculpa para se ausentar da mesa e se colocou num canto, próxima à união de duas paredes no fundo da grande sala que reunia bicicletas ergométricas, esteiras e os aparelhos da musculação. Ficou espiando por detrás de um deles. O gordinho saiu do vestiário em seu enorme short verde metálico, vestindo uma camiseta larga e começou a andar a passos de tartaruga por entre os equipamentos. Não parecia se interessar por nenhum deles. Sem perceber que estava sendo observado, o homem começou a olhar para os lados discretamente. Quando sentiu-se dissolvido na paisagem, voltou para perto do vestiário, apoiou as costas e a sola de um dos pés na parede e ficou observando. Estava desmascarado, ela pensou. Esse baixinho tarado paga a mensalidade e vem até aqui só para ficar olhando a mulherada. Resolveu que iria falar com ele, soltar alguma gracinha quando passasse de volta para o seu lugar, para que o homem soubesse que seu vouyerismo não era mais anônimo. Mas antes disso e de ir correndo contar o que descobrira às colegas - outras recepcionistas, ávidas por fofocas novas - resolveu espionar mais um pouco e, prestando atenção, percebeu que ele não estava olhando mulher nenhuma. Nem homem, explique-se bem. Ele parecia mesmo não estar olhando para nada, tinha um olhar perdido, como se estivesse concentrado em alguma coisa que não estava ali. De vez em quando, pigarreava. O sistema de áudio foi acionado e uma voz robótica chamou o nome dela. Precisava voltar para a mesa da entrada. Enquanto se dirigia para lá, viu o pesado aluno olhando no relógio e voltando para dentro do vestiário de onde saíra minutos atrás. Não conseguia entender, ainda era muito cedo para que ele já estivesse se preparando para ir embora, conhecia os horários do homem. Talvez ele tivesse percebido que estava sendo vigiado. Ficou preocupada, com medo que o cliente reclamasse aos seus superiores. Dez minutos se passaram e nada dele sair. Vinte minutos. Esticou o pescoço mais uma vez, de forma que pudesse ver a parede onde o homem estava encostado anteriormente e a porta do vestiário, mas ele não estava lá. Passou-se meia hora ou mais até que o aluno, enfim, passasse pela roleta da saída, no horário de sempre, e se despedisse com um aceno animado, como que revigorado pelo exercício que não fizera. Não tinha percebido nada sobre ela, felizmente. A partir deste momento, a curiosidade preencheu todo o horário livre da recepcionista, que não era pouco. O que aquele homem fazia dentro do vestiário? Sacanagem não poderia ser, havia sempre um ou dois funcionários da academia lá dentro, cuidando de guardar as mochilas e alugar as toalhas aos alunos. Uma solução prática seria perguntar a estes colegas o que acontecia durante aquela meia hora, com certeza eram testemunhas oculares, mas não se dava com os rapazes. Achava-os grosseiros e sem educação - realmente eram extremamente mau-humorados, mas que homem com tal vista panorâmica no trabalho não seria? O fato é que ela começava a se divertir e queria desvendar a história sozinha. No dia seguinte, quando o baixinho entrou, a garota esperou um pouco, aproveitou a ausência do supervisor em determinado momento e correu para os fundos da academia. Havia um corredor estreito, para onde davam as pequenas e altas janelas que ficavam bem em cima dos chuveiros do vestiário masculino e que, esporadicamente, era visitado por cada uma das funcionárias. Do lado de fora, os vidros ficavam na altura dos olhos e geralmente estavam quase completamente embaçados, o que ajudava a encobrir a presença das observadoras. Restava apenas um pequeno filete de transparência na parte superior de um ou outro vidro, onde elas encaixavam os olhares. Mas o homem ainda não estava lá. Ficou se distraindo, olhando outros alunos pelados, até que ele apareceu. Toalha enrrolada na larga cintura, sabonetinho na mão esquerda, foi cumprimentando um a um com um aceno, numa popularidade que impressionou a menina. Todos, cada um no seu box, pareciam felizes com a sua chegada. Ele abriu os dois registros de um dos chuveiros, regulou a temperatura da água e, quando parecia boa, apertou o botão de um pequeno reservatório preso junto à parede, enchendo as mãos de xampu. Fez bastante espuma na cabeça já meio calva e, de repente, começou a cantar. Esfregava o couro cabeludo e cantava alto, afinado, uma música antiga e brega. Tremia a voz no vibrato quando achava bonito, segurava no agudo, improvisava trechos de melodia que não faziam parte da versão original, batucava algumas partes no peito molhado. Quando acabou, foi aplaudido. De pé, claro, ninguém era louco de se abaixar num lugar daqueles. Alguém no meio do pequeno aglomerado que se formara na entrada que dava acesso aos chuveiros gritou: "canta aquela do Roberto!". Ele aspirou o ar profundamente, pigarreou e voltou a cantar, desta vez atendendo a pedidos. Não era um profissional, nem nunca seria. Sabia disso e nem tinha tal pretensão. Era exatamente o que se mostrava naquele momento: um legítimo cantor de chuveiro. Mas um cantor de chuveiro realizado, sem mágoas artísticas. Apresentava-se diariamente naquele vestiário lotado. Alguns alunos, por ouvir falar, chegavam a mudar o horário dos seus treinos para coincidir com o show, e ele nunca decepcionava. Orgulhava-se de pensar, e provavelmente estava certo, que dentre os cantores de chuveiro era o que tinha o maior e mais fiél público de que se teve notícia. Inclusive, acabava de ganhar uma nova fã, que por pouco não bateu palmas lá de fora, emocionada, quando a música acabou. Ela também adorava o Roberto.

Escrito por Marcelo Nogueira às 07h20
[ ] [ envie esta mensagem ]




[ ver mensagens anteriores ]