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MAAMBE A DOIS
 O rapaz zairense deu uma garfada no reluzente maambe - prato de carne cozida em azeite de palma, com arroz, verdura e molho de amendoins - recém-preparado por sua nova e linda namorada e percebeu imediatamente que os dotes culinários da moça não acompanhavam suas qualidades estéticas. Mas sorriu e esforçou-se em demonstrar o quanto aquilo estava delicioso. Era o primeiro jantar desde o início do relacionamento e, para uma mulher do Zaire, o fato de um homem rejeitar uma refeição preparada por ela é uma ofensa grave, que daria margem a um término imediato de namoro, tendo a ofendida o direito, por tradição, de atirar o prato, juntamente com seu conteúdo, diretamente no rosto do infeliz. Ruim pela boca, pior pelo nariz, ele pensava. Melhor do que a tradição do país ao lado, em que ele teria seu pênis decepado e guardado em conserva. Conversavam sobre amenidades, como a perna do vizinho arrancada por uma hiena na tarde anterior, quando ele começou a sentir que algo não ia bem no funcionamento do seu organismo. A namorada perguntou se ele estava gostando da comida e ele disse que sim, que estava adorando, usou elogios só existentes no dialeto quiluba, para tentar, com o exagero, desviar a atenção de sua aparência pálida. Deu mais uma larga garfada no maambe, cada vez mais enjoado, e a porção veio acompanhada de uma dor de cabeça e um princípio do que parecia ser um desarranjo intestinal. Começou a suar, como se diz, em bicas. Bebeu um gole d’água para ver se melhorava, mas parecia só piorar. Foi quando um de seus olhos deu uma tremidinha e em seguida se desprendeu da órbita e caiu bem em cima da mesa. Após alguns segundos de silêncio constrangedor, ele fez que não percebeu e continuou comendo. Soltou um sonoro “hummm”, torcendo para que ela não visse o peteleco que dava no globo ocular, que voou longe e foi abocanhando no ar pelo cãozinho da casa. Então o sangue começou a esguichar das suas duas orelhas, aos jatos. A menina se levantou da mesa e começou a gritar: “pára, pára! Não come mais isso!”, mas ele não escutava, com todo aquele sangue saindo dos ouvidos. Continuou comendo, cada vez com mais voracidade. A carne, o arroz, o molho de amendoins. Elogiava efusivamente, gritava o quanto tinha sorte em arranjar uma mulher tão boa na cozinha. Quando pensou em espetar um bocado de verdura, percebeu que sua mão havia derretido. Mesmo assim, continuou fingindo indiferença e pegou o alimento com a boca mesmo, diretamente do prato. Não parava de soltar gemidos de prazer. “Nunca comi nada tão gostoso”, dizia, enquanto seus dentes caíam. A menina, à esta altura, estava longe, gritando no meio da rua, mas ele não estava vendo mais nada, desde que o segundo olho caíra dentro do prato e ele o comera, pensando consigo mesmo que pelo menos naquela porção a menina havia acertado no tempero. O sabor da refeição, de qualquer forma, logo deixou de ser um problema, a partir do momento em que ele perdeu a língua. Continuou comendo até o fim, literalmente. Sobrou apenas uma pocinha do rapaz, mas o prato estava limpinho. Infelizmente, ele não teve a chance de provar da sobremesa, à qual, segundo leis internacionais de gastronomia e bons modos, teria pleno direito, mas dizem que esta estava ainda pior do que o maambe. A lição que fica, no fim das contas, é aquilo que os zairenses mais velhos, do alto da sabedoria que só os anos provém, não cansam de dizer: começo de namoro e epidemia de ébola, não é fácil.
Escrito por Marcelo Nogueira às 13h54
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