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CARRO FUNERÁRIO
Assumidamente ou não, todo mundo tem um certo temor em relação ao carro funerário. Tenho certeza que você, por mais cético que seja, evita ir atrás dele no trânsito, desvia o olhar quando passa um na rua, tem gente que até se benze. Outro dia me flagrei mudando de faixa para fugir de um desses rabecões na estrada e o assunto me despertou o interesse. A sensação é a de que o veículo é uma espécie de mensageiro daquela que é inevitável para todos nós, como se a sua passagem fosse um recado velado: “a sua vez vai chegar, guenta aí”. Ou como se a morte que ele carrega em seu interior passasse um pouquinho para todos ao seu redor, através de pequenas partículas invisíveis que emanariam dos defuntos e que seriam capazes de causar tragédia ou má sorte. Mas a verdade é que as estatísticas, sempre elas, não comprovam esta nossa tese intuitiva. Você não ouve falar em acidentes envolvendo carros funerários, não vê acidentes com carros funerários, não cruza com carros funerários parados no acostamento com o triângulo ao lado, eu acho, inclusive, que os carros funerários sequer morrem. Mas naquele dia, a sorte de um deles foi diferente. Estavam no automóvel o motorista, um outro funcionário da funerária e, obviamente, o pobre desnascido. Por um atraso no encerramento do velório, a velocidade do carro que carregava o caixão era bem acima da habitual nestas ocasiões, fazendo inclusive com que parte do cortejo se perdesse durante o percurso. O cemitério já estava prestes a fechar e não se podia correr o risco de encontrar o portão de ferro trancado. O fato é que, talvez até pela falta do hábito de andar àquelas velocidades, a certa altura o condutor perdeu o controle do veículo numa curva e o carro despencou de um barranco altíssimo. Quando o resgate chegou, parecia não haver mais esperanças. No meio do que podia se chamar de destroços, os paramédicos já tinham feito o gesto de “não” com a cabeça, acompanhado daquele barulhinho normalmente grafado como “tsc”, código universal da medicina que significa “já era”, e estavam se virando para ir embora e dar lugar ao pessoal do IML quando um deles ouviu uma tosse. Lá de dentro do carro preto acidentado, um homem vestindo paletó e gravata acenava. Era o defunto, ou ex-defunto, como seria mais correto chamá-lo a partir de agora. Saiu sem um arranhão, talvez pela proteção do caixão, que servira como uma espécie de capacete para o corpo inteiro, sendo assim o único sobrevivente daquela fatalidade. Com o impacto, seu coração, antes parado, voltara a funcionar, num desses milagres que a ciência até explica, mas não convence. - Foi feio o degócio aí, dão? – disse, ainda com os algodões tampando-lhe as narinas. Os familiares e amigos foram chegando, parando seus carros com o pisca-alerta ainda ligado, e vieram cumprimentar o homem, meio sem saber o que dizer numa hora daquelas. Ele teve a impressão de perceber uma certa decepção em alguns deles. De qualquer forma, sentia-se fisicamente ótimo. Tanto que voltou a trabalhar no mesmo dia, aproveitando que já estava de terno, e pôde cobrar pessoalmente o motivo de cada amigo que não comparecera ao enterro, oportunidade rara. A um dos mais chegados, inclusive, só perdoou depois que o fez jurar de pés-juntos que ao próximo, iria.
P.S.: Conto levemente alterado em 5 de maio, em relação ao publicado originalmente.
Escrito por Marcelo Nogueira às 21h38
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