Histórico
Ver mensagens anteriores
Votação
Dê uma nota para meu blog
Outros sites
F/Nazca Saatchi&Saatchi
Pá-Pum
Quase Nada Sobre Quase Tudo
Caderno de Vidro
Projeto Releituras
|
| |
 |
 |
Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário |
|
| |
Chevette 86
O sinal fechou e ele parou a dois carros da faixa de pedestres. Como sempre acontece em São Paulo, vieram aquelas garotas com roupas engraçadas, entregando folhetos de imobiliária, normalmente com a foto de um casal feliz ou de uma personalidade como a Hebe. Não consigo entender por que alguém compraria um apartamento pela remota possibilidade de cruzar com a Hebe no elevador às sete da manhã, cheia de olheiras - se eu tivesse a intenção de comprar um, provavelmente isso me fizesse desistir. Eram três meninas naquele dia. Elas passaram pelo primeiro carro e deixaram três folhetos (cada uma deixou três). Fizeram o mesmo com o segundo motorista. O homem já tinha aberto um vão na janela e preparado um espacinho no saco de lixo pendurado no câmbio, desses que se ganha na lavagem, para receber a propaganda, mas as meninas olharam o carro e passaram direto para o de trás. Ele estava num Chevette 86 (modelo 87, diga-se). Não pretendia comprar apartamento nenhum, mas sentiu-se mal em não ter recebido os papeizinhos. Estava claro, as meninas haviam julgado: “esse não tem dinheiro para comprar um apartamento”. Não tinha o dinheiro, e gostava da Hebe, mas não engoliu a afronta. Se elas estivessem tão interessadas assim no negócio de vender apartamentos, não desperdiçariam folhetos deixando tantos em cada carro. O sinal abriu. Melhor assim, pelo menos não junta lixo no carro: “é pobre, mas é limpinho”. Andou mais uns quatro quarteirões e mais um sinal vermelho. E lá veio uma nova leva de meninas panfleteiras, enquanto algumas outras ficaram na calçada balançando bandeiras enormes com os nomes das construtoras, como se fosse haver um jogo de futebol entre as equipes dos escritórios concorrentes. Resolveu dar mais uma chance a elas, abriu novamente o vão na janela e ficou esperando. A primeira estava quase chegando, mas olhou o Chevettão, difarçou e passou para o carro de trás. O homem pensou em buzinar, em protesto. A segunda garota, nem disfarçou, agiu como se ele não estivesse ali e foi direto para o automóvel de trás. Uma terceira olhou o carro de longe, mas ele já havia perdido as esperanças. Fechou o vidro e ficou lá dentro, de cara fechada, filosofando sobre como a humanidade era superficial, mesquinha e fútil. Pegou pesado mesmo. Mas eis que, quando menos esperava, ouviu uma batidinha no vidro. Lá estava a garota, papel em riste, oferecendo-o ao dono de um Chevette 86. Pela rapidez com que chegara, tinha inclusive dado preferência ao homem e seu carro de museu, pulando outros automóveis mais pomposos que estavam no seu caminho. Ele, que já estava irremediavelmente decepcionado com o ser humano, se comoveu com aquela atitude. Nem todo mundo julga os semelhantes superficialmente, foi o que concluiu, quase lacrimejando. Pegou, orgulhoso, os três ou quatro folhetos que a garota entregou e ia jogar no lixo imediatamente, como sempre fazia, mas sentiu-se na obrigação de dar pelo menos uma olhadinha daquela vez. Então pôde ler: “Troque já o seu carro! Superfeirão de automóveis neste sábado!”
P.S.: Este conto é antigo, mas é a primeira vez dele no blog. Para quem já conhecia, amanhã volto de férias, aí paro com as reprises.
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|
| |
|
 |
|