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O fim

O velho decidiu que a família inteira deveria morrer, ele inclusive. Estava um pouco triste pelos mais novos, mas no fundo sentia-se até aliviado. Andava sofrendo de muitas dores, não conseguia mais fazer tudo o que fazia quando jovem (há anos não virava uma “estrela”) e, principalmente, era mau-humorado mesmo. Não sabia se veio com a idade ou se era uma característica própria, mas o mau-humor era, inclusive, motivo de orgulho. Disputava com outros senhores da mesma idade, e de estado de espírito semelhante, e se considerava o vice-campeão. Na verdade era muito mais mau-humorado do que os concorrentes, mas se colocava em segundo lugar para sentir mais desgosto. Começou a planejar mentalmente os detalhes do grande dia, aquele ao qual nenhum deles sobreviveria. Seria durante um jantar, na noite de Ano Novo. Um final apoteótico. Nos dias que se passaram, tentou lembrar-se de episódios da sua história, cenas envolvendo os membros da família, pois achou que era apropriado para quem está vivenciando os últimos momentos assistir ao “filme da própria vida”, mas achou o filme um saco . E a espera, ao invés de deixá-lo abalado, foi causando excitação. Quando as primeiras uvas foram comidas, para trazer sorte para o ano que se aproximava e desobstruir os intestinos constipados, ele estava mais feliz do que nunca. A família, que ia chegando aos poucos para a festa, inconsciente do seu destino trágico, estranhou ver o patriarca, que sempre fora tão carrancudo, bebendo e relembrando histórias que nunca foram contadas anteriormente. Sua longínqua infância, suas aventuras, suas mulheres – a avó não gostou muito dessa parte. Não se falava de outra coisa na festa, até porque, o velho exigia toda a atenção dos presentes. Nem desconfiavam que aquela poderia ser a última refeição de suas vidas. Depois de comer e beber o tanto que foi capaz, o velho saiu andando com dificuldade e sentou-se no quintal para observar as estrelas e aguardar o momento. Não poderia mais voltar atrás e, principalmente, não queria. A morte, pensava, com seu capuz negro e sua foice impiedosa já devia estar dobrando a esquina, ali pela altura do mercadinho. Deu meia-noite e ele fechou os olhos, num suspiro. Finalmente. Vieram lhe cumprimentar os parentes, aos gritos de Feliz Ano Novo, champanhes estourando, mas o encontraram mais mal-humorado do que nunca, não quis falar com ninguém. Seu plano fracassara, ninguém morreu, estava decepcionadíssimo. Foi deitar-se triste, desiludido e vivinho da silva. Vinha se preparando para aquele instante desde a mocidade, não entendia o que podia ter dado errado. Não se pode confiar em ninguém mesmo. Era o primeiro dia do ano 2000. O dia em que o mundo não acabou.

Escrito por Marcelo Nogueira às 10h11
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