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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

Apê

Tarde chuvosa de sábado. O telefone tocou.
- Alô.
- Pedro?
Era o Pedro, ela sabia, perguntou por perguntar. Não se falavam há quase dois meses, desde que terminara o namoro.
- Tudo bem?
- Eu tô bem. E você?
- Bem.
- ...
- E com você, tá tudo bem? Eu já perguntei isso, né?
- Não tem problema, eu respondo de novo: tô bem. Eu tô bem o suficiente para as duas vezes.
Ele riu. Mas era mentira, ela não estava tão bem. Esperou, desesperada, que ele ligasse, por semanas. Não acreditava que a separação fosse a sério. Eles costumavam brigar, se separar e reatar num intervalo de menos de vinte e quatro horas, para a alegria do dono do motel do bairro.
- Que bom que você ligou.
- É. Pensei em você e resolvi ligar.
- Pensou em mim? Por algum motivo?
- Nada de mais. Só pensei. Queria te ver.
Silêncio.
- Eu tenho pensado em você também.
- Você quer vir jantar hoje aqui no apê?
"Apê" era o apartamento dele, mais especificamente "A.P.", abreviatura de "Ana e Pedro". Ela se emocionou ao ouvir o termo.
- Você tá aí? No apê?
- Tô. Quer dizer, agora é só um "P".
Ela riu.
- Você vem? Eu faço aquele frango ao curry. Sem a lasca de louça dessa vez, prometo.
Ela percebeu algo estranho no som da voz ao telefone.
- Pedro, você tirou os móveis? O apartamento tá vazio?
- Não, tá tudo igualzinho. Por quê a pergunta?
- Que eco é esse quando você fala?
- Eco? Que eco? (eco... eco...)
Agora ele parecia nervoso.
- Esse eco! Parece até que você tá no... Peraí. Você tá falando do banheiro?
- Não! É... Eu liguei o efeito de eco do meu celular! Não tem celular com joguinho, câmera de foto? O meu tem efeito de eco, ué.
- Você me ligou do banheiro, Pedro! Por que você lembrou de mim no banheiro?
- Qual a diferença? Eu lembrei de você, o importante é isso!
Disse a palavra "importante" fazendo força.
- Seu nojento! Eu não acredito! Você teve dor de barriga e lembrou de mim? Foi isso? Eu fui uma dor de barriga pra você?
- Não! Você tá entendendo errado!
- O que você quer que eu entenda disso?
- Não tem nada pra entender! Esquece essa história.
- Ou você explica ou eu vou desligar. Aliás, dependendo da explicação, eu vou desligar também.
- Calma, eu falo. Não tem nada de mais também, você tá fazendo tempestade em copo d'água.
- Você é que tá fazendo tempestade, e não é em copo d'água. Vai explicar ou não vai?
- Eu pensei em você no banheiro porque eu lembrei da briga que a gente teve quando eu fiz cocô de porta aberta. Lembra? No comecinho do namoro?
- Não acredito! O primeiro beijo, a viagem pra Fernando de Noronha, tanta coisa que a gente passou junto e você lembra de mim por causa de cocô?
- Mas é romântico! Foi a nossa primeira briga! Eu lembrei da nossa primeira briga!
- Não é romântico, Pedro, é cocô! Cocô! Eu tinha esquecido que você é um grosso! Tchau, Pedro Luiz, não me liga mais!
Bateu o telefone e foi chorar no quarto. Do outro lado, ele ficou desiludido, com o telefone ainda no ouvido, imóvel (nem poderia se mexer muito naquele momento). Ele já tinha fechado a revista quando o telefone tocou. Era a Aninha.
- Diz uma coisa: tá aberta?
- O quê?
- A porta do banheiro. Tá aberta?
- Não. Tá fechada.
Um instante de silêncio.
Ela mudou o tom de voz, falou carinhosamente dessa vez.
- E a sua prisão de ventre, melhorou?
- Mais ou menos.
- Você tem comido fibras?
- Muitas. Mas não adianta nada.
- Tenta mamão com laranja.
- É bom, é?
A porta estava fechada. Com a porta fechada, ainda tinham chances.



Escrito por Marcelo Nogueira às 22h24
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