Existem, inquestionavelmente, dois tipos de pessoas no mundo: as que ganham sorteios e as que não ganham. Se você faz parte do segundo grupo, suas chances de ser agraciado com um lucro inesperado são próximas de zero. Mesmo sabendo disso, considerava sua falta de sorte acima do normal. Sua maior façanha era nunca ter acertado um número sequer na loteria. Fazia seu joguinho toda semana, desde que começara a trabalhar, ainda novo, e apesar disso - pensava em comprovar o fato e mandar para o livro dos recordes - em nenhuma ocasião uma dezena sequer escolhida por ele coincidia com os números sorteados. Já havia tentado a data do aniversário, a placa do carro, os números do telefone da namorada, mas errava na mosca, todas as vezes. E seu azar não era exclusivamente aplicado à loteria. Nenhuma vez na vida ganhara qualquer tipo de sorteio, nem bingo, nem rifa, nem par ou ímpar, nem cara ou coroa. Era de uma falta de sorte exemplar. Mas não desistia. Já nem sonhava mais com a bolada do primeiro prêmio. Rezava por uma quina, uma quadra, se contentaria até com uma trina ou pelo menos a consolação de uma mega-bina. Nenhum santo atendia, mas ele continuava insistindo. Até que um dia, quando já ia rasgar o bilhete da semana anterior para guardar o que acabava de comprar, resolveu conferir o resultado, colado num quadro de avisos na parede da casa lotérica. Quando viu a primeira dezena, levou um susto. Era a mesma que estava impressa no bilhete em sua mão. Finalmente, um número! Já estava feliz, não precisava nem continuar conferindo. Mas continuou. A segunda dezena, bingo! Quero dizer, estava correta, bingo é outro jogo, e paga muito menos. E a terceira dezena. E a quarta. E a quinta. E, não podia ser, a sexta. Todas, iguaizinhas no papel em sua mão e no cartaz, como se alguém tivesse pego seu bilhete, copiado os números e colado ali, na parede. Dobrou o tíquete rapidamente, colocou no bolso da calça e saiu, meio tonto, procurando um lugar para sentar-se. A lotérica ficava no corredor de um shopping e ele encontrou um grande banco vazio bem em frente a ela. Sentou-se e abriu o bilhete de novo, só podia ter visto errado. De onde estava ainda conseguia enxergar o papel na parede do estabelecimento. Conferiu mais algumas vezes, reparou se o número do sorteio também coincidia e não haviam mais dúvidas, era o ganhador daquela semana. Neste momento, entendeu tudo. Sua falta de sorte era, na verdade, uma economia. Enquanto os outros gastavam suas cotas de bem-aventuranças ganhando bugigangas por aí, ele guardara tudo, durante toda a vida, para usar de uma vez só. A previsão de prêmio para aquele sorteio era algo astronômico, já que, como sempre acontece, estava acumulado há algum tempo. Invariavelmente, se tornaria um milionário. E agora, o que fazer? Contaria para os amigos? Para a namorada? E se tentassem sequestrá-lo? Devia pagar o que devia ao primo ou se faria de desentendido? Respirou fundo e decidiu que antes de planejar o que fazer com o prêmio precisava resolver algumas questões práticas. A primeira delas: buscar o dinheiro. Entrou novamente na lotérica e perguntou, fazendo o máximo esforço para parecer inocente:
- Moça, diz uma coisa, como eu faço se eu ganhar na loteria?
- Como você faz? Sei lá, me dá um carro.
- Pode ser, pode ser, mas eu digo, o que eu tenho, quer dizer, teria, assim, hipoteticamente, que fazer pra pegar o dinheiro, sabe? Num caso, muito difícil, de eu ganhar. Só supondo, assim.
- Ah, é fácil. Você pode entregar o bilhete aqui mesmo ou ir numa agência desse banco – apontou para um anúncio do tal banco, colado no vidro.
- Tá bom, obrigado.
- Não esquece do meu carro, hein.
- Pode deixar.
Considerou que o banco era mais seguro. Não confiaria em sacar um bilhete premiado numa lotérica, cheia de pessoas desesperadas para ganhar um dinheiro fácil. Na rua do shopping havia uma agência do tal banco e ele entrou com o coração batendo forte. Mandou chamar o gerente, dizendo que era só com ele mesmo. Quando o gerente chegou, foi direto.
- Eu ganhei na loteria, vim buscar o prêmio.
O gerente se espantou.
- Na acumulada?
- Isso.
- Posso ver o bilhete?
Pegou o bilhete e entregou na mão do homem. O funcionário olhou os números, dobrou o bilhete, enfiou dentro do bolso do paletó e disse, com expressão séria:
- Espera um pouquinho que eu já volto.
O gerente saiu andando, inicialmente devagar, depois mais rápido, na direção da porta de saída. Passou pelo segurança e, quando estava fora da agência, saiu correndo em disparada. O homem, que acabava de deixar de ser milionário, só teve forças para esboçar uma reação: gritou, da porta, ao ladrão que já quase virava a esquina:
- Manda um carro pra menina da lotérica!
O gerente fez sinal de “legal” com a mão, e sumiu.