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CONSUMIDOR (ou BRASILEIRO MÉDIO ou ainda EM DEFESA DO KASSAB)
Na semana passada saiu uma liminar contra a lei do prefeito que não gosta de propaganda na rua, anulando seus efeitos por tempo indeterminado. Não sei no que isso vai dar, já que o tempo indeterminado pode, justamente por ser indeterminado, durar uma eternidade ou acabar antes que eu termine esta frase. Sem querer tomar partido ou defender esta ou aquela posição, achei por bem publicar este conto, que, penso eu, ilustra bem os temores do prefeito ao proibir a propaganda, este mal nacional, nas ruas de tão nobre cidade.
Oito da manhã. No trânsito, o homem vê um anúncio de cerveja na porta de um bar. É apenas a imagem de uma garrafa com uma mulher ao lado. Ele passa pelo cartaz tranquilamente, sem a vontade incontrolável de tomar uma cerveja àquela hora, apenas com uma leve sensação de que, se consumisse aquela determinada marca, não estaria dirigindo sozinho, e sim acompanhado de uma loira escultural. Uma vitória, pensou. No segundo anúncio, teve um pouco mais de dificuldade. "Use camisinha", dizia o outdoor, uma dessas placonas de rua. Abriu o porta-luvas e vasculhou lá dentro, mas por sorte não encontrou nenhuma. Teria grande dificuldade em manter uma ereção durante o trajeto para o trabalho e, com uma mão ao volante, abrir o envelope e vestir o preservativo, mas, como o anúncio disse para usar, ele usaria sem discutir. Era um brasileiro médio, um cara normal, e como todo brasileiro médio, altamente influenciado pela propaganda. Sua vida andava muito difícil, reagindo a toda mensagem publicitária que via de maneira submissa. Por dia, tomava umas oito cervejas, lavava roupa umas duas vezes (ela já nem ficava mais branca), comia toda sorte de guloseimas, doava coisas para dezenas de instituições e aproveitava todo tipo de liquidação, o que ajudava muito a continuar tendo o que doar. Hoje, depois de meses de terapia, sentia-se mais confiante, capaz de passar por um anúncio de lingerie sem sentir vontade de vestí-la (o que o deixou bastante aliviado) ou de ver um imenso outdoor de pomada contra assaduras sem ter que passar o resto do dia com o traseiro lambuzado. Acontece que, numa dessas tardes de sábado, sem ter o que fazer, ele acabou ligando a TV, coisa que andava evitando, e sem querer sintonizou bem no canal de televendas. Assim que a imagem apareceu na tela, ele leu o texto "ligue já". "Ligue já" não era justo. Não podia resistir a um apelo tão direto, tão imperativo. Pensou em, antes de ligar para a tal loja, telefonar para a terapeuta, mas não tinha esse direito, afinal, tinha que ligar "já" e "já" não abria brechas, não dava margem a um outro telefonema antes. Eles pensam em tudo, estes marqueteiros. Ligou já e comprou tudo o que a atendente oferecia, de meias a chapas de fritar bifes, de purificadores de água a facas que cortam até tênis de corrida. Perdeu todo o dinheiro que conseguira juntar nos poucos meses de progresso psicológico. Para piorar, ainda teve que passar um tempão usando os tênis todos pela metade, com os dedos para fora, e com o traseiro lambuzado. Mas, justiça seja feita, um traseiro totalmente livre de assaduras.
P.S.: o conto logo abaixo, "O dia em que os chineses invadiram o mundo", também foi postado esta semana.
Escrito por Marcelo Nogueira às 21h20
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O DIA EM QUE OS CHINESES INVADIRAM O MUNDO
Os chineses, como todo mundo sabe, são os japoneses do mal. Nos anos 60, enquanto o mundo cantava o ié-ié-ié, os chineses comiam, no sentido alimentar, os reitores das faculdades no meio da rua. Após o fracasso da última tentativa de controle populacional, uma lei que restringia o número de filhos a apenas 52 por casal, os chineses, cansados de tanto aperto, decidiram invadir o mundo. Ninguém sabe ao certo onde começou. Dizem que um chinês pelado pensou alto uma vez no banho e a idéia se alastrou no boca-a-boca. Privacidade não é um atributo da cultura chinesa. Especulava-se que existiam um bilhão e meio deles, mas não tinham contado os mais baixinhos nem os que estavam sendo pisoteados no momento do censo. Sem armas ou qualquer planejamento, eles simplesmente começaram a correr rumo ao ocidente. Entraram no Casaquistão sem aviso e seguiram, rumo à Europa. O exército casaquistanês foi chamado às pressas, mas seus esforços foram em vão, os inimigos estavam em muito maior número. Os tiros de metralhadora derrubavam os chineses da frente, mas outros vinham atrás rapidamente e atacavam os pobres soldados no tapa. O país caiu em minutos. Entraram na Rússia e era inverno, mas eles eram muitos e estavam bem pertinho uns dos outros, mantinham-se aquecidos às custas de um ou outro pisão no pé. O exército russo já havia recebido avisos dos colegas do país vizinho e estava mais preparado. Foi um massacre, milhões de chineses morreram, quase 0,5% do total. E os russos pereceram, assustados, sendo estapeados por todos os lados. Assim, um a um, Ucrânia, Eslováquia, Polônia, República Checa foram dizimados, com gigantescas baixas numéricas do lado dos chineses, porém irrisórias estatisticamente. O grande bloco podia ser visto do espaço, muito maior e mais ameaçador do que a secular muralha de seu país de origem. Na Alemanha, um chinês subia no ombro do outro para acertar o tapa na cara dos alemães, mais altos. Avançaram sobre a Itália, pisotearam os franceses. Foram se especializando. Em Portugal, apontavam o céu e gritavam "olha lá", antes de bater. Os Estados Unidos, depois da notícia de que os últimos portugueses haviam sido abatidos, convocaram todos os seus exércitos que não estivessem trucidando alguma nação no momento e partiram, Atlântico adentro. O piloto do primeiro caça tremeu com a cena que viu: uma multidão de chineses, nadando todos juntos, cobrindo a água até o horizonte, deixando o mar amarelo, o ar logo acima da tona esfumaçado pelas gotículas. Em pouco tempo alcançariam o continente, seria impossível evitar. O presidente americano entrou em rede nacional - o que nos Estados Unidos vira rede mundial - e informou à população que seria obrigado a adotar a solução extrema. Com expressão consternada, mas no fundo excitado, mandou que se soltasse a bomba atômica sobre o mar. E assim foi feito. Num acesso de nostalgia, as forças armadas resolveram chamar o mesmo velhinho, que decolou com o Enola Gay, avião que batizara com o nome da própria mãe (e dizem, a personalidade do pai), pela terceira e tão esperada vez. E depois pela quarta e pela quinta. Ao todo foram oito bombas, detonadas por uma extensão gigantesca de oceano. O Green Peace cogitou fazer um protesto no local sob os gritos de "salvem as baleias" mas não tinham entendido direito a parte do "atômica". Acabaram protestando por e-mail mesmo. No final da tragédia, não havia sobrado um único chinês inteiro. Os americanos respiraram aliviados. Mais uma vez, salvaram o mundo. Mas, quando já preparavam os marshmellows para serem assados numa grande comemoração, foram surpreendidos por uma gigantesca massa de chineses molhados e alucinados, num número avassalador, muito maior do que a quantidade, já astronômica, inicial. Inexplicavelmente, de cada pedaço de chinês, nascera um novo chinês inteiro. E nervoso. O último a cair foi o presidente, coberto de tapas. Mas esse, bem que estava merecendo.
Escrito por Marcelo Nogueira às 21h19
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Motivos para deixar comentários em blogs de contos
Em 1998, em Massachusetts, um homem deixou um comentário num blog e, ao fechar a janelinha pop-up, teve uma visão e acertou os números da loteria acumulada, vindo a receber o prêmio de milhões de dólares dias depois, sem sequer ter jogado. Em 2001, na pequena cidade de Morgantown, West Virginia (a terceira melhor cidade pequena dos Estados Unidos, segundo o livro "The New Rating Guide to Life in America's Small Cities"), o jovem lenhador Ernest Stagliano comentou um texto num blog e foi nomeado cidadão benemérito de Morgantown, segundo dizem, com o mouse ainda na mão. No mesmo ano de 2001, mas já no segundo semestre, na distante cidade de Kirov, Rússia, uma mulher deixou um comentário num blog (em russo) e foi sorteada na promoção do posto de gasolina, ganhando imediatamente uma casa com vista para os montes Urais e um grande quintal com capacidade para até oito huskys siberianos (cães de trabalho, de porte médio, rápidos, ágeis, fluentes e graciosos em ação, segundo fontes fidedignas). Um mesmo homem, residente em local não divulgado, deixou comentários diversos em blogs nos anos de 2003, 2005 e 2006 e encontrou um galeão afundado com tesouros incalculáveis, venceu uma prova de soletrar na TV e recebeu permissão do padre local para manter casamento ao mesmo tempo com três competidoras do concurso de Miss Universo - nenhuma vencedora, mas ainda assim, todas as três capazes de ficar bem tanto em trajes de noite quanto de biquini - sem que sua alma tivesse que arder no inferno por isso. Portanto, antes de passar pelas "N" (ene) oportunidades de deixar comentários contidas neste blog sem se utilizar de nenhuma delas, reflita: em seu lugar, o que Ernest Stagliano faria?
Escrito por Marcelo Nogueira às 11h08
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Travesseiro
O assassino entrou no hospital vestido de enfermeiro e em poucos minutos estava ao pé da cama de sua vítima. Apenas um fio de luz da rua entrava por uma janela. Num rápido e silencioso gesto, ele puxou um enorme travesseiro de um móvel hospitalar e, segurando firmemente pelas pontas, andou até ficar cara a cara com o doente. Antes que pudesse pensar no que fazia, deu o bote e começou a comprimir com força o rosto do pobre homem por debaixo do travesseiro. O enfermo acordou neste momento e começou a se debater, mas era inferior em força e estava bastante debilitado. Em pouco tempo, seu corpo jazia imóvel na cama metálica. O assassino, com frieza e racionalidade, decidiu que manteria a posição por mais alguns minutos para, só então, dar como cumprida sua missão macabra. Mas eis que, de repente, ele ouve um som saído do interior do travesseiro, algo como um grunhido. Não soava exatamente como um moribundo gritando por socorro. Parecia mesmo uma fala dita calmamente, apenas abafada o suficiente para que não se entendesse seu conteúdo. "Grhumfgrumgrumfpheit". Olhou para os lados, pensou que pudesse ter vindo de outra cama. O travesseiro falou de novo. "Grhumfgrumgfunghi". A mão daquele que deveria estar morto se mexeu e apontou para o travesseiro, com certa impaciência. O assassino tirou o objeto do rosto do doente, que pôde enfim falar com clareza. - Tá doido? O que você pensa que tá fazendo? - Te matando, acho... - Com um travesseiro? - Por que não? É um estilo consagrado. - Mas é um travesseiro! Eu deveria morrer só porque você colocou um travesseiro na minha cara? - Não sei, todo mundo morre, você nunca viu nos filmes? Dá pra respirar aí embaixo? - Mas é claro! É um travesseiro: pano com penas dentro, ou espuma, sei lá, esse hospital é meio vagabundo. De qualquer forma, o ar passa. - Você não sentiu nem um desconforto, uma faltinha de ar? - Pra falar a verdade, tava bem gostoso. Deu até um soninho. - Droga... - Por que você não usa, sei lá, uma arma, como um assassino de verdade? - E o barulho? Aqui no meio do hospital, todo mundo ia ouvir. - Sim, mas você podia usar um travesseiro pra abafar o barulho. - Não sei, não sei... Se não serve pra sufocar, não dá pra confiar nele como abafador de tiro também. - Bom, talvez você não tenha feito direito, vai ver o problema é a sua técnica. Quem sabe se você apertasse com mais força, a própria pele do meu nariz fechasse a entrada de ar e eu morresse? - Será? Eu não quis apertar muito pra não judiar. - Ah, mas já que vai fazer, faz direito. - Deita de novo, deixa eu tentar. Deitou. O assassino apertou o máximo que pode. Depois de alguns minutos, já estava suando, ouviu o grunhido embaixo do travesseiro de novo. - Grunfgrunfgrauf. Tirou o travesseiro, irritado. - Já sei, não adiantou. - Melhorou, melhorou... - Você está sendo gentil. - É, tem razão. Não mudou nada. Só ficou mais quentinho. Vai ver é o tipo de travesseiro. Quem sabe não tem que ser um tipo específico, senão não funciona? Penas de ganso suíço, sei lá. - Pode ser, pode ser. - Mas, honestamente, travesseiro? Onde é que você tava com a cabeça? Que ridículo... - Não precisa esculhambar também. Eu sou um assassino, não se esqueça. - Desculpa. - Bom, já atrapalhei demais a sua noite. Vou indo. - O que é isso, eu não tava fazendo nada mesmo. - Então, tchau. Melhoras. - Obrigado. Mas antes de sair, me conta uma coisa: por que você queria me matar, hein? - Ué, pra ficar com a sua herança, não é óbvio, tio? - Mas que herança? Eu sou professor de escola pública. E não sou seu tio coisa nenhuma. - Como assim, você não é o Hercílio Rubens da Fonseca? - Imagine, você acha que um cara desses ia ficar nessa porcaria de hospital? - Será que eu anotei errado? Você parece o tio, mas tá tão escuro aqui dentro... - Peraí, então você é sobrinho do Hercílio Rubens, aquele milionário? - Sou... - Você deve ter dinheiro, hein. Aposto que tem uma grana, aí mesmo, na sua carteira. - É, até que eu não posso reclamar... A enfermeira entrou correndo no quarto, assustada com o barulho que ouvira, e flagrou o doente no chão, apertando um travesseiro no rosto de alguém que se debatia. Quando conseguiu separar os dois, o homem no chão já estava morto. O travesseiro era ótimo, o problema era a técnica.
Escrito por Marcelo Nogueira às 23h12
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