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Editorial
Você entrou, por algum motivo, no blog de contos de um redator publicitário. Se veio aqui atrás dos textos de um publicitário, vai se decepcionar. A idéia é justamente o oposto, usar este espaço para falar sobre tudo aquilo que não é publicidade - minha atividade profissional. São os contos que eu escrevo nos intervalos deste ofício. Agora, se veio atrás dos textos de um redator, talvez se decepcione também. Mas tomara que não. Seja bem-vindo (a) (para ser politicamente correto (a)).
CONTOS DO INTERVALO é atualizado às segundas-feiras. nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h58
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Deus no trânsito
Saiu de casa atrasado. Tudo parado. Apelou para Deus.
- Pô, Deus, bem no dia em que eu tô atrasado esse baita trânsito? Sacanagem. - Desculpe, eu não tava olhando. Achou estranho receber uma resposta, mas fingiu indiferença. - Ué, o Senhor não é aquele que era onisciente, onipresente e tal? - É, mas quando eu disse isso eram só dois, ficava mais fácil ver tudo. Além do mais eu só falei para ver se eles se comportavam. - Não adiantou. - É, não adiantou mesmo... - Ô, Deuzinho, dá um jeito, vai. Meu chefe vai me matar se eu me atrasar de novo. - Não posso fazer nada, não é bom interferir. - Como não? Você pode tudo! Sei lá, faz uma ventania levar todos estes carros da minha frente! - Não dá, essas coisas não são assim. E depois eu acabaria levando o seu carro junto. - Por quê? - Aos Meus olhos, vocês são todos iguais. Olhando daqui de cima, parecem um monte de pontinhos. Aliás, quem é que estava falando Comigo mesmo? - Aqui, no carro preto. - Ah, desculpe. - Pô, Deus, faz uma forcinha. O que é que custa? - Olha aqui, rapaz, não me leve a mal, mas eu tenho mais o que fazer. Não devia nem estar falando com você. - Quebra essa, vai. Afinal, eu sou Seu filho. - Nepotismo agora? - E porque não? O Senhor não é brasileiro? Bufou, impaciente. - Tá bom, tá bom, não precisa ofender. Vira na primeira à direita aí. - Oba! - Isso, agora à esquerda. - Tá. - Direita ali e próxima à esquerda. - Que caminho tortuoso! - Os caminhos da fé são assim mesmo, meu filho. - Nossa, deu certo! Eu trabalho logo ali, naquele prédio. O Senhor é melhor que taxista! - O que é isso... Eu não sei sobre tantos assuntos. - Então tá. A gente se vê. - Em breve. - Credo. - Brincadeira. Boa sorte lá, com o seu chefe. - Amém. - Amém? Como assim “amém”? - Ué, não é assim que se termina uma conversa com o Senhor? - Eu sei, eu sei, vocês sempre falam esse negócio de amém, mas Eu nunca entendi. - Acho que quer dizer “assim seja”, em latim. - Ah, então é isso? Eu sempre fui péssimo em latim.
P.S.: Este é um conto antiguinho, mas que eu nunca tinha postado no blog.
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h40
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Crime policial
Dizem que um sábio deve atribuir sua sabedoria ao fato de possuir duas orelhas e apenas uma boca. Um burro, como é de conhecimento geral, tem orelhas enormes e nem por isso escapou de ser conhecido como símbolo de falta de inteligência. Mas, antes de qualquer reflexão a respeito da sabedoria, cito isto apenas para introduzir o que aconteceu com aquele policial de orelhas igualmente desproporcionais. Bem, o que se soube foi que ele cometeu um crime, coisa a qual deveria combater, o que veio a agravar ainda mais sua culpa. Parece que matou um inocente, ou algo que o valha, sei que foi coisa feia mesmo. Daí que o juiz, na hora de escolher uma sentença para o ex-homem-da-lei, sentiu a necessidade de ser rigoroso, o mais que pudesse, porque, inclusive, andava sentindo um certo afrouxo na moral da tal corporação, já que estes, para quem não sabe, só iam a julgamentos em casos gravíssimos, ficando todos os tipos de deslizes, trapaças e esculhambações de cunho menor a cargo de um processo interno, o que quer dizer que ficava tudo entre eles mesmos. Pensou em expulsão, claro, acrescida de trinta anos de reclusão, cadeia propriamente dita, e mais uns serviços a comunidade, para terminar de irritar o sujeito. Mas após algum tempo pensando, decidiu-se por uma pena, por assim dizer, alternativa, mas nem por isso menos cruel e intimidadora para os demais: decretou que o homem deveria continar no exercício de suas funções como policial, tal e qual não houvesse feito nada de errado, mas com o seguinte detalhe, grifado e repetido nos autos para não deixar qualquer dúvida: que passasse a ocupar o banco traseiro da viatura. Só isso. Dois policiais iriam na frente e ele iria atrás, e de forma alguma, por mais que insistisse, chorasse ou ameaçasse os colegas, poderia ser aceito no banco da frente. Nem no colo. Este, como me parece bem claro, foi um incrível acerto. Nada é pior para o bem estar de um policial do que ser condenado ao banco traseiro da viatura. Nenhum profissional pode se sentir mais humilhado e desimportante do que o policial que vai no banco de trás da viatura, tentando enxergar por entre as cabeças dos outros que vão a frente sem saber direito o que acontece, incapaz de ligar a sirene quando julga necessário e com o rádio fora do seu alcance. A assim foi feito, lá foi o policial para a traseira do carro, dizem, carregado pelas portentosas orelhas já citadas. Começou um verdadeiro martírio. Por mais que tentasse botar o corpo para fora da janela, para adquirir um ar intimidador, ninguém que passava pela rua e via a cena tinha qualquer dúvida: aquele ali, o que vai atrás, não manda nada, é o mascotinho do grupo, alvo de chacotas. Era julgado por todos, sabia disso, via nos olhos desdenhosos das pessoas. E quando algum bandido era capturado, era ele quem fazia companhia para o cidadão, que o olhava como um igual, invariavelmente, quase sempre com um pouco de pena. Algumas vezes, num ápice de humilhação, os colegas da frente, cansados de ouví-lo se lamentar, chegavam a fechar a janelinha que dividia o carro internamente e ainda comiam donuts lá na frente, para provocar. As reações nos meios policiais foram diversas. Muitos colegas acusaram o juiz de desumanidade, mas ninguém negou que sua atitude surtira efeito. O nível de crimes entre policiais caiu a praticamente zero, tamanho o medo de ser pêgo e ter um destino igual. Mas, como a história veio a provar, a dose do remédio talvez tenha sido demais. O pobre homem, aquele que serviu de exemplo, não aguentou. Acabou metendo uma bala nos miolos, bem no meio do espaço entre as duas orelhonas, mas não sem antes se posicionar no banco do motorista, fazendo questão de sujar bem o painel e acabar com a festa daqueles dois metidos que iam na frente. Deixou uma carta endereçada ao pessoal dos direitos humanos.
Escrito por Marcelo Nogueira às 11h22
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