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Três demissões
Entrou ofegante na sala daquele que seria o terceiro demitido do dia. Tinha a falsa sensação de que estava mais nervoso do que suas vítimas. O homem não estava lá. Procurou no café, nas salas de reunião, nada. A menina que sentava ali por perto e que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar que função exercia, passou no corredor e contou que o tal funcionário - já quase ex-funcionário - não tinha aparecido naquele dia, que havia ligado dizendo que não estava se sentindo bem. Era um homem responsável, o coitado. O chefe ficou desolado. Estava preparado para demití-lo, mantendo viva o que havia restado de uma fúria assassina, depois de já ter demitido outros dois. Não sabia se seria capaz de fazê-lo no dia seguinte, sem o suor no rosto, com a cabeça fresca e a humanidade reestabelecida. Tinha que ser agora, se não pudesse ser ele, que fosse outro. Mirou na menina, que pelo resto da vida culparia aquele xixi por sua demissão. Não fosse por um capricho da bexiga, estaria na sua mesa, como sempre, sem chamar a atenção, nem fazer nada, e não teria passado pelo corredor em momento tão inoportuno. Perdeu o emprego ali mesmo, de pé. Tarefa realizada, restou no escritório o silêncio que vem depois dos massacres. Ouvia-se apenas os ruídos vindos de lá e cá das pessoas juntando seus pertences, abrindo e fechando gavetas. O chefe voltou para a sua sala e não se falou mais nisso. Pelo menos até a hora do almoço, quando, em cada mesa de cada pequeno restaurante das redondezas do prédio comercial, o assunto voltou com cem porcento de audiência. Ninguém entendera o motivo das demissões sumárias. A empresa ia bem, cheia de clientes, os negócios prosperando, os humores em alta. Não havia explicação, ao menos para a grande maioria, para quem a medida do sucesso da corporação era apenas o que os olhos e os ouvidos captavam. Além do mais, nem sequer rumores sobre possíveis prejuízos haviam, e fofoca, como se sabe, é a melhor fonte de informação empresarial que existe. Os dias se passaram, o clima foi melhorando e o medo de novas demissões se dissipou. Realmente a empresa ia, como se diz, de vento em popa. E quando quase mais ninguém se lembrava daquele fatídico dia, eis que aparece um fato novo, bastante curioso. Uma faxineira, revirando revistas e jornais velhos, num começo de manhã, naquele horário em que elas dominam as empresas, cantando e circulando pelas salas e lugares que serão proibidos para elas pelo resto do dia, resolveu parar para dar uma olhadinha no horóscopo de um jornal antigo. Não acreditava nessas coisas, por isso não via mal em ler a coluna desta ou daquela semana, tanto fazia. Seria um bom dia para o amor, dizia o texto, mas ela deveria tomar cuidado nos negócios. Plutão, sempre ele, pensou, em alinhamento com Júpiter, poderia trazer problemas inesperados. Caso ela ocupasse algum cargo de chefia, o que não era o caso, pensou mais uma vez, os astros apontavam um único caminho: demitir, no mínimo, três pessoas. A mulher arregalou os olhos. Lembrou-se imediatamente do que se passara naquela empresa poucas semanas atrás. Seria possível? Resolveu que aquilo não era assunto para ela, mas decidiu também que não passaria em branco. Guardou o jornal num saco de lixo ainda não utilizado e o levou consigo para a sala das faxineiras. Mais tarde, discretamente, deixou o recorte do horóscopo do seu signo, que era o mesmo do chefe, a julgar pela data da festinha que organizaram para ele na empresa, na mesa do funcionário com quem tinha maior intimidade. Coincidentemente, aquele mesmo que fora salvo por não estar presente no dia das demissões, e que inclusive viera a saber disso, informado pela menina que tomou seu lugar na guilhotina. A faxineira apertou o papel na mesa com a ponta do dedo e olhou para o colega com expressão séria. Ele percebeu que deveria lê-lo imediatamente. Passou os olhos pelo recorte e entendeu tudo, agora estava claro, não podia ser outra coisa. O motivo de tamanha crueldade fora apenas a indicação de um astrólogo, num jornal qualquer, vagamente direcionada àquele chefe e a todos mais chefes que por um acaso do, oportunamente aqui citado, destino, tenham nascido naquele intervalo de dias do ano em que os astros ocupavam tal e tal posições. Um completo absurdo, ou disparate, termo que ele preferiu usar mentalmente. O funcionário, que chegou a ser quase ex-funcionário, resolveu que aquilo não podia se aceitar. Quem sabe o que poderia vir depois disso? Um homem que baseia suas decisões em superstição não pode continuar exercendo uma função tão importante numa grande empresa como aquela. Quem seria o próximo? Ele, claro, escapara por pouco do último mau conselho astrológico. Tomou coragem, ligou para um primo que era promotor e acabou processando a empresa. Levou o caso para os tribunais, num injustificado plural, já que a briga se deu num único tribunal, e bem pequeno. O primo não teve nenhum trabalho em vencer a disputa judicial, já que o chefe acabou confessando. Sentia-se culpado desde o acesso de loucura. Sim, seguira mesmo o conselho do esotérico, tinha arrasado a vida profissional de funcionários dedicados e competentes por vontade dos astros, era um irresponsável, em suas próprias palavras. O funcionário que quase foi ex-funcionário e que agora realmente o era, mas por decisão própria, recebeu uma indenização altíssima, assim como os três demitidos, que também vieram a processar a empresa depois dele. Abriu um pequeno negócio com a quantia, que deu muito certo, vindo a multiplicar em várias vezes o dinheiro recebido. E aquilo tudo, para ele, serviu de lição, fora um grande aprendizado. Pelos anos que se seguiram, continuou lendo seu horóscopo diariamente, como sempre fizera, e seguindo à risca todos os conselhos daquele sábio astrólogo. O mesmo que, tempos atrás, na coluna daquele mesmo jornal, dissera para ele que, acontecesse o que acontecesse, chovesse ou fizesse sol, não fosse trabalhar naquele dia. Inventasse uma desculpa, dissesse que não estava passando bem, mas que não fosse trabalhar. Era a vontade dos astros. E com Júpiter daquele jeito, também, quem iria?
Escrito por Marcelo Nogueira às 12h32
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