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A inevitável extinção do coiôio

Houve um tempo em que os mares do planeta eram infestados por tatatís. Este belo e antigo animal podia nadar livre por entre as algas dos cinco continentes, inconsciente do destino que o aguardava. Assim como tiranossauros, tigres-dentes-de-sabre e tantas centenas de milhares de espécies que já deixaram suas marcas indeléveis em trechos de barro que o tempo transformaria em pedra, as tatatís, sem que qualquer paleontólogo consiga até hoje precisar como aconteceu, se extinguiram por completo. Da mesma forma que o homo-erectus, nosso ancestral direto, elas se perpetuaram apenas por deixar por aqui descendentes mais evoluídos, parando de existir em sua forma primitiva. É triste ver uma espécie desaparecer. É a evolução, não podemos lutar contra ela, mas não deixa de ser um espetáculo melancólico, ainda mais para os saudosistas. Hoje, não há mais nada que possamos fazer pela tatatí, ela virou história. Da mesma forma, a bobobá, um charmoso inseto voador multicolorido. Há tempos não é mais encontrada em seu habitat natural, ao contrário do seu descendente mais evoluído, que cresceu numericamente na mesma proporção. Oficialmente extinta. É por tudo isso que estou, desde que descobri o drama de sua espécie, empenhado na luta pela salvação de um outro animal, ainda em grande número no planeta, mas que tenho indícios o suficiente para afirmar que em processo irreversível de extinção: o coiôio. O coiôio é um animal silvestre simpatissíssimo, incapaz de fazer mal a uma mosca. Sua aparência é frágil e seu pêlo é macio. Ainda pode ser encontrado em abundância por aí, inclusive na culinária de certos lugares, mas que isto não iluda o ecológico leitor. Foi noticiado recentemente o aparecimento de um animal que tem todas as características necessárias para ser considerado a evolução natural do coiôio, o que é sempre o início de tudo, o que dispara uma sucessão de eventos que acabam com o desaparecimento total da espécie antiga. Foi assim com o homo-erectus, foi assim com a tatatí e a bobobá, não há de ser diferente com o pobre coiôio. A tatatí, não resistiu à introdução na natureza da tartaúga, sua prima mais moderna. A bobobá, por sua vez, sucumbiu ao poder da boboêta, sua descendente direta. Mas o coiôio está sob minha proteção. Estou me lixando para o Darwin na mesma medida em que ele se lixava para o barbeador. Dei-me o direito de interferir diretamente nas regras da natureza e da evolução e vou preservar o coiôio o quanto puder. Lá em casa, aponto para ele, me refiro ao boneco como “esse aí”, mas nada de se dizer “coelho” por aquelas bandas. “Coelho”, lá, é considerado palavrão. Coelho... “Coiôio” é muito melhor. No que depender de mim, vai ser “coiôio” até minha filha, hoje com um ano e meio, completar o primeiro grau. Salvem os coiôios!






Escrito por Marcelo Nogueira às 14h55
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