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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

Tempos modernos

No meio da tarde de domingo, ele se levantou e abriu a porta da rua.
A mulher estranhou.
- Vai aonde?
- Comprar um cigarro.
- Mas você não tinha parado?
- Desisti.
- Não pode. Não sabe quantas substâncias cancerígenas têm no cigarro?
- Nunca contei.
- São mais de oitenta, fora as quatro mil substâncias tóxicas.
- Nem é tanto assim, vai.
- Usam até veneno de rato nesse troço. Não vai comprar coisa nenhuma.
- Mas eu quero.
- Tem que ter força-de-vontade.
- Não tenho.
- Eu acabei de me filiar a uma ONG anti-tabagista e você quer fumar? Tenha dó.
- Um macinho só, depois eu páro.
- Nada disso, tem que parar de vez. O cigarro causa muitas doenças! Câncer, enfizema, úlcera, bronquite.
- Eu não ligo.
- Causa impotência também.
- É?
- Irreversível.
- Nesse caso, tudo bem. Então eu vou comprar um pacote de jujuba.
- Jujuba?
- É, uma jujubinha, colorida, inofensiva.
- Mais ou menos. Jujuba é uma caloria vazia, você sabe, né? Não tem nenhum nutriente. E a obesidade é um problema em ascensão no mundo.
- Sei, sei...
- Você sabe que o sobrepeso pode causar pressão alta, doenças cardíacas, derrame?
- Sei de tudo isso, mas é uma jujuba só. Eu prometo. Já que cigarro não pode, eu quero uma jujuba. Pra relaxar.
- Tá bom, vai. Uma jujuba, tudo bem.
Então ele saiu para comprar jujuba e nunca mais voltou.





Escrito por Marcelo Nogueira às 09h17
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