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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

Cantada

Ela estava compenetrada, inclinando a cabeça para ler os títulos da seção de auto-ajuda. Ele chegou de surpresa.
- Se você quiser, eu te ajudo.
- Como?
- Uma mulher bonita como você não devia ter que ajudar a si mesma.
- O quê?
- Auto-ajuda. Você está olhando os livros de auto-ajuda.
- Ah, tá – e voltou a olhar as prateleiras.
Ele não desistiu.
- É para equilibrar na cabeça?
- Como é?
- Você é modelo, não é? O livro é para equilibrar na cabeça, pra treinar o andar.
- Tá me chamando de burra?
- Não. De linda.
Ela fraquejou.
- Obrigada...
Ele aproveitou.
- Qual o seu nome?
- Judite.
- Que lindo.
- É o nome da minha avó.
- Ah, eu adoro velhinhos. E cachorro também.
- Odeio cachorro.
- Cachorro? Eu falei cachorro? Eu quis dizer nenê. Adoro nenê. Mas, o que você vai fazer hoje à noite, Ju?
- Vou ler.
- Claro – olhou para os livros - e antes disso?
- Sei lá.
- O que você acha da gente tomar um chopinho, bater um papo?
- Não posso, desculpe.
- E amanhã? Amanhã você pode?
- Não sei, a gente nem se conhece...
- Eu compro o mesmo livro que você, aí a gente tem o que comentar.
Ela riu.
- Você não desiste?
- Qual o problema? Um chopinho não faz mal a ninguém.
- Tá bom, vai. Eu aceito.
Ele abriu um sorriso. Ela perguntou:
- E você, qual o seu nome?
Mas ele não estava mais ouvindo. Tirou uma prancheta de dentro de uma mochila que trazia nas costas e, sem mais nem menos, começou a anotar alguma coisa.
- O que você tá fazendo?
- O que foi mesmo que eu falei depois do papo de equilibrar o livro na cabeça?
- Sei lá, não lembro.
- Ah, você perguntou se eu tava te chamando de burra e eu respondi: “não. De linda”.
Falou esta última parte olhando para o nada e fazendo um gesto com a mão, como se acompanhasse a leitura de um texto invisível no ar.
- O golpe fatal – disse, orgulhoso, enquanto escrevia.
- Você tá anotando a nossa conversa?
- Não. Só os pontos-chave.
- Que loucura é essa?
- Desculpe, deixa eu explicar. Eu dou aulas, sabe? Essa é a minha profissão.
- Dá aula? De quê?
- De cantada. Eu trabalho num curso de paquera, já ouviu falar? Pra gente tímida e tal. Dá dinheiro, saiu matéria em revista e tudo. De vez em quando eu preciso colocar algumas técnicas em prática, para testar.
- Seu canalha!
- Canalha por quê? Eu ajudo muita gente, sabia? Tem famílias que não existiriam sem os meus conselhos.
- Sério?
- Claro. Tem homem que não sabe nem dar “oi” para uma mulher. Nem todo mundo tem talento nato para o negócio.
- Convencido.
- Tava dando certo, não tava?
- É, até que tava.
- Você se saiu bem também.
- Me saí, é?
- Muito bem. Difícil no começo, foi entregando os pontos aos poucos.
- Obrigada...
- Eu classificaria você como um alvo nível sete e meio.
- Só isso?
- É uma pontuação alta. A escala vai até nove.
- Por que não dez?
- Dez seria a mulher impossível. Para mim, isso não existe.
- Modesto você.
- Bom, tenho que ir. Prazer, viu. A gente se vê.
Estendeu a mão burocraticamente.
- Espera aí, mas e o chope?
- O chope? Depois do que eu contei?
- É, eu não devia, mas ainda quero. Gostei de você, apesar de tudo. Você não é casado, é?
Ele olhou para ela com mais atenção. Era linda.
- Não, não sou. Mas eu tenho aula amanhã...
- Tudo bem, então no sábado.
- Sábado agora? Não sei, preciso ver...
- Você tá nervoso?
- E-eu? Imagine.
- Tá tremendo.
- Esfriou, né?
- Você não quer sair comigo? É isso?
- Não, é que...
- Tudo bem, já entendi. Você tava me usando mesmo.
- Espera, deixa eu falar.
- Cachorro!
Ela foi embora, batendo o pé com força. Ele ficou parado, com a prancheta nas mãos, vendo aquele mulherão se afastar, sem saber o que fazer. Sentiu vontade de ir atrás dela, mas não conseguiu. Era um profissional excelente, não havia dúvidas, dono de uma técnica invejável. Mas na vida pessoal sempre fora um fracasso. Que ninguém no curso soubesse, era um tímido irreparável. E ainda por cima, virgem.



Escrito por Marcelo Nogueira às 10h21
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