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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário
 

Desabafo a um amigo

Conversavam sobre banalidades, quando um dos amigos, de repente, faz uma expressão grave. O outro imediatamente percebe. Ele suspira e fala.
- Cara, a gente já é amigo há bastante tempo, eu queria falar sobre um assunto com você.
- Claro, o que houve?
- Eu tô com um problema aí...
- Fala, se eu puder ajudar...
- Na verdade eu tô precisando de um conselho, sabe? Tô meio desnorteado, não sei o que fazer.
- O que tá acontecendo?
- É meio esquisito de dizer, não sei, melhor deixar pra lá...
- Não, cara, que é isso, pode confiar em mim. É sempre bom desabafar, eu tô aqui pro que der e vier.
- Não sei se você vai entender, é complicado...
- Pode falar. Você é gay? Tudo bem, eu entendo, cada um é de um jeito, sem discriminação – disse, se afastando levemente no sofá.
- Não, cara! Nada disso! É outra coisa.
- Então conta.
- É que eu... Eu tenho visto umas pessoas aí...
- Umas pessoas? Que pessoas?
- Eu falei que era complicado...
- Explica. Eu tô ouvindo.
- É o seguinte: eu tenho visto pessoas que não existem. Acho que eu tô ficando doido, sei lá.
- Ah, tá, só isso?
- Como, só isso?
- Isso eu sei. Eu mesmo não existo.
O outro fica olhando, sério. Após alguns segundos, fala.
- É, pra falar a verdade, eu sei que você não existe.
- Ué, então se você sabe que eu não existo, eu sei que eu não existo, porque você tá me contando isso como se fosse uma grande novidade?
- É que eu ando meio preocupado com essa história, sabe, e não tenho com quem me aconselhar. Você é o meu melhor amigo.
- Isso é verdade. Mas porque você resolveu se preocupar com isso agora? A gente se dá tão bem.
- Aconteceu uma coisa nova.
- O que foi?
- Eu vi o Elvis.
- Tem certeza? Não era um imitador do Elvis?
- Não, era o Elvis mesmo. O Presley. Dentro do meu guarda-roupa.
- Entendo. É, o Elvis é grave. Ver pessoas normais que não existem é muito mais saudável do que ver o Elvis. Existem limites.
- Pois é, agora eu não sei o que fazer.
- Bom, acho que só tem uma coisa a fazer: procurar um psiquiatra.
- Mas isso não é coisa de maluco?
- O que é isso? Que conceito mais ultrapassado. Hoje em dia todo mundo vai ao psiquiatra. Eu mesmo frequento um.
- Um de verdade?
- Não, claro que não, um que não existe, como eu.
- Como é que eu nunca vi o cara?
- Viu sim, é um que apareceu no seu espelho, há uns anos atrás.
- Ah, sei, um de barba. Tomei o maior susto.
- Ele também.
- Mas psiquiatra... Sei lá, eu tenho um pouco de vergonha. Acho que vão ficar falando. As pessoas reais, eu digo.
- Mas se isso está te incomodando, você precisa procurar um. Ver pessoas que não existem é grave.
- Você não devia estar me dizendo essas coisas. Você sabe que isso pode ser o seu fim. Se eu me curar, você vai deixar de existir. Digo, de vez.
- Tudo bem, eu não me importo. Inclusive, dou a maior força. Já que você tocou no assunto, eu também tenho meus problemas psicológicos.
- Sério? Quais?
- Tenho tendências suicidas.
- Bom, se você quiser falar sobre o assunto, estou disposto a escutar.
- Valeu.
- Eu também.
- Você não. Fica na sua, Elvis.



Escrito por Marcelo Nogueira às 10h53
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