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Carta anônima
A campainha tocou, eram sete e meia da manhã. Quando atendeu, não havia ninguém. Estava quase fechando a porta quando viu o envelope no chão, um envelope sem selo, onde lia-se apenas seu nome. Tentou procurar o carteiro anônimo com o olhar, mas a única pessoa no seu raio de visão era a velhinha que praticava cooper pela rua todos os dias, correndo mais devagar do que se estivesse andando de bengala. A esposa, da cozinha, gritou perguntando quem era e ele imediatamente escondeu a carta no bolso do pijama (é para isso, enfim, que eles servem), esperançoso de que fosse de alguma admiradora secreta, apesar da sua barriguinha de chope. Respondeu para a mulher que não era ninguém, devia ser coisa de criança. Subiu correndo as escadas e foi, ofegante, abrir a carta no quarto, olhando para o corredor de vez em quando, para ver se a mulher não o seguia. Dentro do envelope estava um pedaço de papel rasgado e nele, uma única frase, escrita com letras grosseiras: “e você devia usar uma mordaça”. Assim mesmo, começando com “e”, como se a frase estivesse escrita pela metade. Sentiu um calafrio na espinha. Não entedia exatamente o que significava aquela frase, mas era claramente uma ameaça codificada. Uma mordaça? Seria o aviso de um seqüestro? Uma vingança? Será que falara demais em alguma ocasião e agora seria punido? Era um homem de meia idade, casado, sem filhos, trabalhava no setor de informática de uma grande empresa e não conseguia se lembrar de um único desafeto que pudesse ter cultivado em todos os seus anos de profissão. Mas hoje em dia, pensou, não se precisa motivo para matar os outros. A gente lê todo dia no jornal, ou todo domingo, como era seu hábito de leitura jornalística. A princípio, não quis contar nada, para não alarmar a mulher. Pensou que talvez pudesse ser apenas uma brincadeira e que, se a coisa fosse séria, provavelmente receberia mais algum aviso, quem sabe com alguma pista sobre o autor da intimidação. Mas não recebeu mais nada. Todos os dias abria a porta pontualmente às sete e vinte e cinco, para tentar surpreender o vilão num flagrante, mas nunca encontrou nada além da velhinha atleta, que passou a correr pelo outro lado da rua, assustada com o olhar desconfiado daquele sujeito de pijama. A esposa, curiosa sobre o motivo das incursões matinais à porta de casa e percebendo a crescente aflição do marido, acabou arrancando a informação e entrou em pânico, fazendo com que ele ficasse ainda mais paranóico. Não passava um dia em que não se preocupasse com a própria segurança. Instalou um olho-mágico na porta (o interfone ficava caro), colocou caco de vidro nos muros, passou a dormir com um facão de carne embaixo do travesseiro e até resolveu, dessa vez, entrar no rateio do salário do segurança sexagenário que ficava na guarita da esquina e cuja função maior era dar tchauzinho quando passavam os carros, de manhã. (Certa vez, uma das casas foi assaltada e o vigilante foi implacável: deu adeuzinho para o assaltante - que estava de meia na cabeça e tudo - ao que foi retribuído). Além dessas medidas de segurança, o homem ainda escureceu os vidros do carro e passou a fazer caminhos diferentes para ir e voltar do trabalho, o que fez com que se perdesse algumas vezes, à poucas quadras de casa. Mas quanto mais precauções tomava e quanto mais o tempo passava, menos se sentia seguro. Se o lençol esbarrasse em sua boca durante a noite, acordava assustado, pensando que era a mordaça. Mas nada do bandido dar as caras. Nenhuma carta nova. Nenhuma ligação telefônica. Cinco anos depois, o segurança velhinho morreu, e o homem continuava são e salvo. Morte natural, certificou-se, desconfiado. Nunca mais conseguiu relaxar. 1974. Pátio da escola. O homem, na época com doze anos de idade e sem a barriga de chope, vê seu amigo estudioso, de óculos fundo-de-garrafa, num canto, conversando timidamente com uma menina loirinha que, sabia, era sua paixão desde o primário. Depois de algum tempo, sai um beijo. O rapazinho não se agüenta de maldade, e um pouco de dor-de-cotovelo mesmo, e grita: “quem devia usar óculos era ela”. Todos riem. A menina ri. O rapaz de óculos olha para ele por alguns instantes, sem conseguir dizer nada e sai, com o rosto vermelho. Tudo o que ele queria na vida era ter uma resposta para dar.
Escrito por Marcelo Nogueira às 11h59
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Lembranças
Tarde chuvosa de sábado. O telefone tocou. - Alô. - Pedro? Era o Pedro, ela sabia. Perguntou por perguntar. Não se falavam há quase dois meses, desde que terminaram o namoro. - Tudo bem? - Eu tô bem. E você? - Bem. - ... - E com você, tá tudo bem? Eu já perguntei isso, né? - Não tem problema, eu respondo de novo: tô bem. Eu tô bem o suficiente para as duas vezes. Ele riu. Mas era mentira, ela não estava tão bem. Esperou, desesperada, que ele ligasse, por semanas. Não acreditava que a separação fosse a sério. Eles costumavam brigar, se separar e reatar num intervalo de menos de vinte e quatro horas, para a alegria do dono do motel do bairro. - Que bom que você ligou. - É. Pensei em você e resolvi ligar. - Pensou em mim? Por algum motivo? - Nada de mais. Só pensei. Queria te ver. Silêncio. - Eu tenho pensado em você também. - Você quer vir jantar hoje aqui no apê? "Apê" era o apartamento dele, mais especificamente "A.P.", abreviatura de "Ana e Pedro". Ela se emocionou ao ouvir o termo. - Você tá aí? No apê? - Tô. Quer dizer, agora é só um "P". Ela riu. - Você vem? Eu faço aquele frango ao curry. Sem a lasca de louça dessa vez, prometo. Ela percebeu algo estranho no som da voz ao telefone. - Pedro, você tirou os móveis? O apartamento tá vazio? - Não, tá tudo igualzinho. Por quê a pergunta? - Que eco é esse quando você fala? - Eco? Que eco? Agora ele parecia nervoso. - Esse eco. Parece até que você tá no... Peraí. Você tá falando do banheiro? - Não! É... Eu liguei o efeito de eco do meu celular! Não tem celular com joguinho, câmera de foto? O meu tem efeito de eco, ué. - Você me ligou do banheiro, Pedro! Por que você lembrou de mim no banheiro? - Qual a diferença? Eu lembrei de você, o importante é isso! Disse a palavra "importante" fazendo força. - Seu nojento! Eu não acredito! Você teve dor de barriga e lembrou de mim? Foi isso? Eu fui uma dor de barriga pra você? - Não! Você tá entendendo errado! - O que você quer que eu entenda disso? - Não tem nada pra entender! Esquece essa história. - Ou você explica ou eu vou desligar. Aliás, dependendo da explicação, eu vou desligar também. - Calma, eu falo. Não tem nada de mais também, você tá fazendo tempestade em copo d'água. - Você é que tá fazendo tempestade, e não é em copo d'água. Vai explicar ou não vai? - Eu pensei em você no banheiro porque eu lembrei da briga que a gente teve quando eu fiz cocô de porta aberta. Lembra? No comecinho do namoro? - Não acredito! O primeiro beijo, a viagem pra Fernando de Noronha, tanta coisa que a gente passou junto e você lembra de mim por causa de cocô? - Mas é romântico! Foi a nossa primeira briga! Eu lembrei da nossa primeira briga! - Não é romântico, Pedro, é cocô! Cocô! Eu tinha esquecido que você é um grosso! Tchau, Pedro Luiz, não me liga mais! Bateu o telefone e foi chorar no quarto. Do outro lado, ele ficou desiludido, com o telefone ainda no ouvido, imóvel (nem poderia se mexer muito naquele momento). Ele já tinha fechado a revista quando o telefone tocou. Era a Aninha. - Diz uma coisa: tá aberta? - O quê? - A porta do banheiro. Tá aberta? - Não. Tá fechada. Um instante de silêncio. Ela mudou o tom de voz, falou carinhosamente dessa vez. - E a sua prisão de ventre, melhorou? - Mais ou menos. - Você tem comido fibras? - Muitas. Mas não adianta nada. - Tenta mamão com laranja. - É bom, é? A porta estava fechada. Com a porta fechada, ainda tinham chances.
Escrito por Marcelo Nogueira às 13h18
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