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Quase defunto
Desde que se lembra, só conseguia dormir como um defunto: barriga para cima, os pés juntos, as mãos morbidamente entrelaçadas na altura do estômago. A mulher, logo que viu pela primeira vez, angustiou-se. Pediu para que ele mudasse de posição, que daquele jeito estaria chamando a morte, mas ele não tinha culpa. Era daquele jeito ou não dormia. Já tentara de um lado, do outro, de bruços, mas não conseguia pregar os olhos. Tentou inclusive a mesma posição, mas simplesmente desentrelaçando as mãos ou posicionando uma um pouco mais acima e a outra mais abaixo, mas não era a mesma coisa. Só na exata posição de defunto conseguia descansar em paz. A princípio, ficou receoso com a idéia de que poderia estar, daquela maneira, chamando a morte, como dissera a mulher. Mas, sem outra alternativa que garantisse as noites de sono, acabou por resignar-se. A esposa, por sua vez, muito pelo contrário. Dia após dia, se preocupava cada vez mais. Não agüentava ver o homem dormindo daquele jeito. Preocupava-se seriamente com a hipótese de acordar pela manhã e encontrar o esposo mortinho, já pronto para ser enterrado. Aos poucos, o assunto virou uma obsessão para ela. Chegou a um ponto em que rezava diariamente pela vida do marido, enquanto ele jazia dormindo ali do lado. Sim, porque a esta altura o homem nem tomava mais conhecimento das preocupações da esposa. Dormia feito uma pedra, apesar dos constantes cutucões da mulher durante a noite, para checar se ele ainda estava vivo. E como, afinal, em todos os outros assuntos importantes eles concordavam, o casamento seguiu assim por anos. Eram felizes, e ele seguia vivo. Não se pode dizer que com o tempo ela mudara de idéia - depois de anos, continuava pensando da mesma maneira - mas, como a tudo na vida, acabou se acostumando. Mais do que isso, estava preparada. Montara, durante os anos em que estavam casados, o que configurava praticamente um enxoval de viúva. Roupas pretas de todos os tipos: com ou sem véu, vestido mais longo ou mais curto, salto alto, salto baixo, até uma opção com chapéu. Informou-se sobre a situação do seguro de vida do marido - estava “ok” - e até já tinha dado entrada num jazigo perpétuo, pertinho da entrada do cemitério, uma graça. Mas, felizmente, nada do marido morrer. Algumas vezes, achou que o momento estava próximo, como quando ele, em viagem de trabalho, ligara avisando que havia conseguido um up-grade no vôo de uma companhia aérea desconhecida. Voaria num avião de manutenção duvidosa, na primeira classe, e portanto, deitado. Mas ainda não foi daquela vez. Em outra ocasião, chegando cansado do trabalho, ele deitara, na posição de sempre, ainda vestido de terno e sapatos. Quando viu a cena, ela caiu no choro. Além do dia em que o homem, romântico, encheu o quarto com flores e velas e ficou esperando a amada chegar para fazer-lhe uma surpresa. Ela se enrolou em problemas no trabalho, acabou atrasando-se e o marido pegou no sono. Era mais ou menos meia noite quando a mulher deu de cara com aquele velório. Os anos foram se passando e, apesar de um ou outro alarme falso, a vida foi tranqüila. Tiveram filhos, os filhos cresceram, chegaram os netos. Ele, dormindo do mesmo jeito. Ela, preocupada do mesmo jeito. Ambos já haviam passado dos oitenta quando, numa manhã fria de inverno, o inevitável aconteceu. O sol havia acabado de se levantar quando ele pôde perceber: a esposa estava morta. Acontecera durante o sono. O enterro foi no dia seguinte, mas houve dificuldades. Parece que os parentes tiveram algum trabalho em colocar o corpo dentro do caixão. A mulher estava numa posição péssima.
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h02
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Apressado
- Francisco! Levanta! Vai se atrasar para o colégio, menina!
- Calma, mãe, já tô indo!
- Tá indo nada, levanta daí, Beatriz! Tó, veste logo essa cueca!
- Luíza! Vambora!
- Olha lá, moleque, teu pai já tá na porta gritando!
- Deixa eu lavar o rosto...
- Lava logo que você já tá atrasada, Eduardo. Cuidado pra não pisar nas suas bonecas.
- Joaquim! Tô saindo!
- Seu pai já ligou o carro. Vai, engole esse pão com manteiga, Gabi. Tá todo amarrotado...
- Até que enfim, hein, eu já tava indo embora.
- Ih, pai, vou ter que trocar de roupa...
- Mas porque, Arthur? Não viu que horas são?
- Desculpa, sujei a calça. Eu tô naqueles dias...
(Nona semana de gravidez. Nada definido. Nem o sexo, nem o nome).
Escrito por Marcelo Nogueira às 16h38
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Primeira barba
O garoto acordou e foi para o banheiro. Ainda com sono, jogou água no rosto e olhou a própria imagem no espelho. E o que pôde ver naquela manhã o deixou maravilhado: um pêlo, bem no queixo. Não um pêlo qualquer, como os que formavam a imperceptível penugem que ele vinha cultivando há algum tempo. Desta vez era um pêlo significativo. Um pêlo incontestável. Ele se arrumou como sempre, pegou o material do colégio, beijou a mãe mas não foi estudar. Assim que virou a esquina, correu para o cabeleireiro. Ou barbeiro, já que se tratava do velho salão de um português conversador, figura antiga no bairro. O moleque entrou, sentou-se na cadeira com apoio para os pés, onde se podia ler o nome do fabricante esculpido em ferro, e disse para o homem, sucinto:
_ Barba.
O português achou graça, mas manteve a expressão séria de quem sabe respeitar o freguês. Pegou a minúscula bacia, preparou uma espuma bem grossa e encheu o rosto do rapaz de branco. Tirou a navalha do estojo de couro, afiou bem numa tira e começou pela costeleta. O fio deslizava removendo a espuma e revelando a mesma pele de antes. O menino não se agüentava de tanta satisfação. Em seguida, o velho passou para a costeleta oposta e acertou a linha que delimitava o cabelo do rosto. Um senhor agora esperava a sua vez, folheando uma revista com a Magda Cotrofe na capa. Quando a lâmina se aproximava do queixo, o rapaz fez um gesto indicando que o português parasse. E, olhando pelo espelho o resto de espuma que agora só cobria o queixo e a pele acima dos lábios, anunciou sua decisão:
_Pode parar. Eu vou deixar o cavanhaque.
Escrito por Marcelo Nogueira às 14h23
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