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CONTOS DO INTERVALO
 

MUDAMOS

 



Email: nognogueira@uol.com.br

 



Escrito por Marcelo Nogueira às 10h53
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FORMIGA NO ESCURO

 

Prestes a adormecer, sem abrir os olhos, sentiu que uma formiga percorria-lhe a face. Mas o caminhar de uma formiga, pensou, percebido apenas pelo contato com a fina pele da maçã-do-rosto, poderia muito bem ser idêntico ao movimento de uma pequena joaninha. As patinhas de uma joaninha em deslocamento, continuou, poderiam, sem dúvida, causar impressão semelhante à que causariam as perninhas de uma barata. Mas como, dessa maneira, com os olhos fechados, seria possível distinguir entre o roçar dos seis pés de uma barata e o das quatro patas, somadas à cauda (contabilizando, assim, cinco pontos de contato), de uma pequena lagartixa? E depois de mais alguns instantes raciocinando, ela decidiu, sensatamente, e já tremendo de medo, abrir os olhos. Mas era tarde: foi esmagada pelo elefante.

 



Escrito por Marcelo Nogueira às 15h15
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ENTREVISTA


_ Nome completo.
_ Eduardo de Souza Azevedo.
_ Idade.
_ 31.
_ Sexo.
_ Masculino, pô.
_ Cargo atual.
_ Gerente de vendas.
_ Qualificações extra-curriculares.
_ Inglês intermediário, computação, fiz um curso de teatro uma vez, serve?
_ Tem alguma doença crônica, alguma incapacitação?
_ Não que eu saiba.
_ Por que você se acha apto para a função?
_ Porque eu tenho atitude, alguma experiência e tô bem interessado.
_ Como você exerceria a sua liderança numa situação de risco?
_ Eu tentaria motivar o pessoal e passar segurança.
_ Se você fosse uma fruta, que fruta seria?
_ Hum... Uva?
_ Sei. Bom, acho que tudo bem. Você tá qualificado. Eu aceito o convite pra jantar.
Está cada vez mais difícil comer a menina do RH.


Escrito por Marcelo Nogueira às 15h32
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O TROGLODITA E O CÁLCULO AVANÇADO


Aquele era um homem-das-cavernas muito especial. Não apenas pelo fato de ser um homem-das-cavernas, coisa que por si só já tornaria alguém especial, mas principalmente por ser um homem-das-cavernas capaz de fazer contas de até oitocentos decimais, de cabeça, isso milhares e milhares de anos antes de o decimal, e até mesmo os números, terem sido inventados. Tudo começou quando ele olhou para as próprias mãos e contou o número de dedos que havia nelas: oito! (dois se foram na boca de um tigre dentes-de-sabre). Logo em seguida ele calculou quanto haveria de dedos para cada um dos trinta e nove tigres dentes-de-sabre que atuavam naquela região, caso fossem divididos igualmente entre eles. A conta era um número que começava por zero, passava por uma vírgula e terminava – se é que terminava – numa sequência de números que o troglodita levaria cerca de duas horas para enunciar, caso suas cordas vocais já estivessem evoluídas o suficiente para desenvover a linguagem. Soltou um grunhido de surpresa. Sua facilidade com os números era incrível, ao ponto dele literalmente vê-los, fisicamente, numa sinestesia inexplicável, ainda mais para os padrões da época. O oito era visto por ele como uma mistura entre azul turqueza, pontos cor de rosa e dois arcos luminosos que se cruzavam. O quinze aparecia como uma fonte de amarelo cintilante e marrom, despejando sua cor num lago prateado. O trinta e nove era um imenso sovaco peludo. Ele resolveu que dividiria seu dom com toda a humanidade, todos os 456 seres-humanos existentes na época, na maioria, seus parentes. Após uma noite em claro de muitos cálculos e rabiscos na parede de pedra da caverna, ele terminou o que parecia ser o esboço detalhado de um caça F5, com o qual pretendia invadir a tribo rival, que morava para lá do rio, e ensinar uma lição para aqueles ladrões de vermes alimentícios. Juntou o maior número de homens que pôde e tentou passar as instruções para que começassem a construção ainda naquele dia, mas um dos integrantes da turba deu uma contra-proposta de que, ao invés de montar o caça, eles fizessem cocô nas próprias mãos e jogassem na cabeça do pessoal da outra tribo, idéia que fez bastante mais sucesso e foi colocada em prática imediatamente. Desmotivado com aquele primeiro fracasso, ele levaria mais alguns dias para voltar a usar seus dons matemáticos. Mas numa manhã bastante feliz, em que apenas uma perna, dentre todas as da tribo, havia sido amputada a dentadas por algum predador, ele se sentiu inspirado e inventou o computador pessoal. Montou um belíssimo PC, usando folhas de bananeira, lascas de pedra e um sapo vivo e chamou os amigos para jogar Tetris, mas sua invençao foi ofuscada, pois naquele exato momento, outro membro do grupo mostrava a todos a roda, objeto que acabara de inventar, muito mais fácil de manipular, com menos comandos e que nunca dava pau, o que acabou acontecendo com a criação concorrente, mesmo sendo esta equipada com a moderníssima versão de sistema operacional batizada de Windows 15000 A.C.. Foi então que ele percebeu que era um hominídeo à frente do seu tempo. Jamais seria compreendido por aqueles bruta-montes comedores de cérebro de macaco, pensava, enquanto degustava um cérebro de macaco. Ele calculou que, com um pouco de sorte, se passasse seu talento adiante copulando com o máximo de fêmeas possível (primas, tias, avó, etc), seus dons matemáticos e criativos talvez pudessem ser apreciados dali a oito mil, oito mil e quinhentas gerações. Poderiam até ser dons comuns, presentes na maioria da população, só dependia dele e de seus encantos como galanteador. Certa noite naquela era geológica, ele se aproximou de uma linda troglodita que contemplava o céu coçando o bigode e, após fitar o firmamento por poucos segundos, disse a ela, em linguagem primitiva de sinais: “tá vendo essas estrelas, broto? São trezentas e setenta e oito mil e quarenta e cinco, só nesse pedaço que a gente consegue ver, e não brilham mais do que os seus olhos”. Ela abriu a boca, mas ao invés de falar ou gesticular, abocanhou um inseto que passava. É claro, seu plano não deu certo, onde já se viu nerd comer alguém? E o resto é história, deu no que deu.

Escrito por Marcelo Nogueira às 01h35
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CONTO NATALINO


O barulho abafado de asas batendo era o aviso que a menina esperava para se aproximar da lareira da velha casa onde vivia. Com a cabecinha tombada para o lado, ela podia observar o belo passarinho que descia pela chaminé e pousava na beirada do ninho - que montara numa reentrância da estrutura interna da lareira, várias semanas antes - para poder, com o pequeno bico, alimentar três minúsculos filhotes, que berravam de fome. Ela assistia a tudo bem quietinha, sem se mexer, para não assustar os protagonistas daquela cena que tanto gostava de presenciar diariamente. Mas a tranquilidade que antes sentia em seu coraçãozinho, agora parecia dar lugar a uma inquietação crescente. Era dezembro, e ela bem sabia o destino das lareiras num determinado dia daquele mês. Com uma inteligência aguçada, apesar da pouquíssima idade, calculava a menina que aqueles pobres filhotinhos deveriam ser incrivelmente frágeis, dado seus pequenos tamanhos e a aparência translúcida de suas peles. O ninho, podia observar bem de perto, não passava de um amontoado de pequenos galhos e folhas entrelaçados por bico, não por mão humana, coisa que deveria se desfazer ao mais delicado toque. Como poderiam, então, os integrantes daquela peculiar família sobreviver ao inevitável esbarrão que estava por vir, proveniente do corpo enorme e gordo de um senhor na descendente por tão apertado caminho? Não sobreviveriam, era fato, e ela sofria antecipadamente. Enviara, por ser este o único canal de comunicação conhecido, dezenas de cartinhas ao tal velhinho, avisando da presença do ninho e de seus habitantes, com recomendações de cautela ou até de uma possível rota alternativa, mas não recebera até agora nenhuma resposta ou qualquer sinal que indicasse ter o destinatário recebido a importante mensagem. Sua aflição só crescia, dia após dia. Até que a noite de Natal chegou, como era inevitável, e a menina sentou-se ao lado da lareira, com uma expressão séria como pouco se vê no rosto de crianças daquela idade, preparada para passar a noite inteira ali, caso fosse necessário. Seu plano emergencial, elaborado às pressas, consistia em gritar ao menor sinal de aterrisagem no telhado, com o máximo da força de seus pulmões - o que não era pouca coisa - para que o enorme visitante tomasse o máximo de cuidado ao descer. Era o que podia fazer, nada mais restava. A família inteira já havia chegado, e já estava ciente da questão, quando ela ouviu um sininho de Natal badalando. Rapidamente, gritou para dentro do vão: “Papai Noel! Papai Noel!”, mas não recebeu resposta. Eis que a porta se abre. A porta mesmo, de entrada. E por ela entra o Papai Noel, de roupa vermelha, barba branca e uma estranha jovialidade na pele, que não seria questionada, tampouco sua incrível semelhança com um primo mais velho da garotinha. Ela correu e abraçou o homem, não poderia estar mais feliz, por ver o velhinho e pela certeza de que os passarinhos estavam a salvo. Certamente, Noel havia lido suas cartas e por isso sensatamente optara por entrar pela porta. Presentes dados, hô-hô-hôs entoados, o senhor se despediu e saiu pelo mesmo lugar por onde entrou, deixando a menina livre para abandonar seu posto e aproveitar a festa junto das outras crianças. No dia seguinte, logo cedo, ela enviou uma outra cartinha, agradecendo pela consideração e sugerindo que o velhinho cogitasse a porta como opção definitiva de entrada, dali por diante. Afinal, assim como aquele, centenas de outros passarinhos poderiam ter a mesma idéia, justamente na época natalina, e estariam sujeitos aos mesmos riscos. Pensou em colocar no texto uma referência à circunferência abdominal do homem, para melhor argumentar que pela porta o processo seria, além de tudo, bem mais confortável do que pelas estreitas chaminés, mas acabou censurando essa parte. Achou que seria indelicado de sua parte.

Feliz Natal.
Marcelo Nogueira.

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 10h19
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PRIMEIRA BARBA


O garoto acordou e foi para o banheiro. Ainda com sono, jogou água no rosto e olhou a própria imagem no espelho. E o que pôde ver naquela manhã o deixou maravilhado: um pêlo, bem no queixo. Não um pêlo qualquer, como os que formavam a imperceptível penugem que ele vinha cultivando há algum tempo. Desta vez era um pêlo significativo. Um pêlo incontestável. Ele se arrumou como sempre, pegou o material do colégio, beijou a mãe mas não foi estudar. Assim que virou a esquina, correu para o cabeleireiro. Ou barbeiro, já que se tratava do velho salão de um português conversador, figura antiga no bairro. O moleque entrou, sentou-se na cadeira com apoio para os pés, onde se podia ler o nome do fabricante esculpido em ferro, e disse para o homem, sucinto:
_ Barba.
O português achou graça, mas manteve a expressão séria de quem sabe respeitar o freguês. Pegou a minúscula bacia, preparou uma espuma bem grossa e encheu o rosto do rapaz de branco. Tirou a navalha do estojo de couro, afiou bem numa tira e começou pela costeleta. O fio deslizava removendo a espuma e revelando a mesma pele de antes. O menino não se agüentava de tanta satisfação. Em seguida, o velho passou para a costeleta oposta e acertou a linha que delimitava o cabelo do rosto. Um senhor agora esperava a sua vez, folheando uma revista com a Magda Cotrofe na capa. Quando a lâmina se aproximava do queixo, o rapaz fez um gesto indicando que o português parasse. E, olhando pelo espelho o resto de espuma que agora só cobria o queixo e a pele acima dos lábios, anunciou sua decisão:
_Pode parar. Eu vou deixar o cavanhaque.


nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 15h57
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INGREDIENTE SECRETO


Vinte anos de casados e finalmente eram dois absolutos desconhecidos. Ela mudou demais, ele mudou de menos, não sabiam exatamente em que ponto haviam tomado caminhos opostos, mas já fazia bem uns dez anos que o único assunto em comum entre os dois era a culinária. Ambos mantinham o hábito de cozinhar, o que faziam com muita competência, e este era o único tema em que parecia haver naquela casa algo próximo do amor, ou da estima mútua. Num dia qualquer, nenhuma data especial, ela preparou um jantar, montou a mesa mais bonita que o de costume, vestiu-se para a ocasião e chamou o marido.
_ Fiz uma receita nova pra você.
Ele se animou.
_ Nova?
_ Quer dizer, mais ou menos nova. É um salmão, mas eu pus um ingrediente diferente.
_ Não conta. Deixa eu adivinhar.
_ A idéia é essa.
Estava excitado. Se a intenção era reavivar um pouco da alegria do casal, ela havia acertado. O homem sentou-se e logo deu a primeira garfada. Mastigou lentamente, tentando extrair o máximo de eficiência de cada papila gustativa. Tinha uma expressão de sommelier.
_ Primeiramente (ele usava “primeiramente” quando o assunto era comida, achava que devia ser mais formal nessas ocasiões), está delicioso. Um primor.
_ Obrigada.
_ Tem mesmo um sabor especial aqui, alguma coisa que eu ainda não consegui identificar. Não é hortelã, é?
_ Não, não é hortelã.
_ Hum... Difícil, difícil...
Deu um gole no vinho. Provou mais um pedaço.
_ Muito bom... Alecrim não é.
_ Não.
_ Já sei! – hesitou - Coentro!
_ Quase.
_ Não é coentro? Achei que eu tinha adivinhado.
_ Passou perto, passou perto.
Ele ainda não havia encostado no risoto, que esfriava no prato, e que também parecia estar ótimo. Seu interesse se resumia ao tal ingrediente surpresa, que passara a ser uma questão de honra desvendar.
_ Não é alcaparra, com certeza. Salsinha também não, cebolinha, muito menos.
Ela parecia impaciente.
_ Come mais que você descobre.
Encheu a boca com um pedaço enorme. Mastigou, mastigou, pensou, meditou, até que seus olhos brilharam. Sentiu a garganta se fechar. Falou com dificuldade, porém entusiasmado, enquanto começava a passar mal.
_ Já sei! Descobri!
_ Fala.
_ É cianureto! Cianureto!
_ Acertou!
_ Eureka! Eureka! – tossia, estava vermelho, a voz cada vez mais rouca.
_ Parabéns, você sempre foi bom nisso. Que paladar!
_ Cianureto! Claro, tão óbvio.
_ Fiquei com medo de colocar demais e estragar a receita.
_ Não, tá perfeito. Harmonioso. Combinando com o limão e a pimenta dedo-de-moça. Você é uma chef exemplar – tossiu mais.
_ Obrigada, obrigada. Você é que é um gourmet exemplar.
Nesse momento ele já estava no chão, se contorcendo. Suas últimas palavras, que se esforçou ao máximo para conseguir pronunciar, foram:
_ Mas o risoto... ...nem provei... O arroz passou do ponto!
Ela socava o defunto com força.
_ Canalha! Canalha!

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 23h32
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ROMANCE


Ele marcou um jantar inesperado numa quarta-feira à noite. Pelo tom de voz ao telefone, não seria exatamente romântico. Mesmo assim, na hora marcada, ou uma meia horinha depois da hora marcada, ela apareceu linda, chamando a atenção dos outros clientes do restaurante. O garçom puxou a cadeira. Ela sentou-se, elegante. O marido já estava lá, suando (ele costumava suar muito), parecia nervoso. Sob a luz da vela ao centro da mesa, ela segurou a mão dele e disse:?
- Desembucha, Paulo. ?
Ele limpou o suor no guardanapo de pano, olhou para os lados e pigarreou.?
- Dessa vez você foi longe demais.?
- O livro??
- Claro. O livro, essa droga desse livro. ?
- Eu sabia. Você está misturando as coisas, Paulo. Eu sou uma escritora, é a minha profissão, você sabe disso.?
- Claro que eu sei, eu sempre admirei o seu talento, foi o que aproximou a gente. Mas era bem diferente naquela época. Você escrevia contos eróticos, lembra? Aquilo, sim. Eu li um deles e pensei: “preciso conhecer essa mulher”. ?
- Qual foi mesmo? ?
- “Orgias na escada”.?
- Era um conto romântico. ?
- Eu lia tudo o que você escrevia. Os textos eram picantes, sensuais, não tinha ninguém melhor do que você para descrever uma, uma...?
- Paixão??
- Putaria.?
- Agora é putaria? Antes você dizia que era arte...?
- Mas é arte! Claro que é! O que seria da arte sem a putaria? Inclusive, depois da gente se conhecer, os textos ficaram bem mais ricos. Você descrevia tudo o que a gente fazia, lembra? Teve aquele conto do metrô, o da obra abandonada, o do tanque do leão-marinho...?
- Esse foi um dos melhores. ?
- Aquilo era um fetiche para mim, quando a gente transava era como se todos os seus leitores estivessem olhando. Aí veio o primeiro romance, uma obra-prima.?
- “Meu marido insaciável”. Imaginei que você fosse gostar.?
- E o seguinte, então: “Um verão em 69”. ?
- Nossas primeiras férias, em 1993.?
- Depois vieram “Quanto mais, melhor”, “O que é possível no Kama Sutra”, “O martírio de um estrado”, tantos que eu nem lembro de todos. O nosso amor estava lá naquelas páginas, de verdade. Os gestos, os toques, os cheiros. Até que, de repente, você vem com aquele livro mentiroso...?
- Você tem que entender, aquilo foi quando eu comecei a escrever ficção, eu expliquei isso na época. Era ficção!?
- “Broxada em Marte”, Silvia? E desde quando marciano usa meias? Bem na hora do sexo??
- Eram quatro meias! Você nunca usou quatro meias! ?
- Daí para a frente foi só esculhambação. “O amor já foi melhor”.?
- Era um livro filosófico. ?
- “Decepções amorosas de uma samambaia”. Samambaia! Você podia ter arranjado um disfarce melhor!?
- Não era disfarce, era uma planta! Você é muito desconfiado!?
- A planta era escritora!?
- Mas ela era ruiva, eu sou morena! Não tem nada a ver!?
- Eu relevei, aceitei seus argumentos por todos estes anos. Mas esse livro novo eu não vou aceitar!?
- Por que não? Você não pode reprimir a arte!?
- “O homem do membro pequeno”, não! Aí já é demais!?
- É uma metáfora!?
- Você não conseguiu me explicar essa metáfora até agora.?
- É uma metáfora complexa, cada um entende o que quiser...?
- Eu entendi muito bem. Dessa vez você subestimou a minha inteligência! E você que sempre disse que era de um tamanho bom... Eu quero o divórcio!?
- Calma, vamos conversar!?
- Nada disso! Eu não converso mais com você. Nem uma palavra. Senão depois vem o livro “O homem da conversa chata”. Chega! Acabou! Adeus! ?
Saiu irritado, esbarrando nos garçons. Ela ficou na mesa atônita, antes de tudo, surpresa com aquela reação. Não imaginava que algum dia o marido pudesse perceber as sutilezas da sua literatura. Pegou o telefone na bolsa e ligou para o seu editor, que era também um amigo.?
- Hélio? É a Silvia. Meu marido pediu o divórcio.?
- Por causa do livro??
- Foi.?
- Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Uma pena.?
Um instante de silêncio nos dois lados da linha até que ela fala:?
- Hélio, cancela o projeto.?
- Como? Cancelar? Mas já está tudo encaminhado!?
- Cancela. Agora.?
- Pensa bem, Silvia! O seu marido já não pediu o divórcio? Para quê cancelar, então? Não vai adiantar nada! ?
- Eu sei, eu sei, não é isso. É que, depois do que aconteceu, eu prefiro publicar aquele outro, que eu escrevi antes, sabe? Agora dá.?
- É verdade, bem pensado, aquele é até melhor do que o novo. ?
- Eu só quero fazer umas alteraçõezinhas, já faz algum tempo que ele foi escrito. ?
- E o que eu faço, então? Espero você mandar as mudanças??
- Isso, espera. Quer dizer, por enquanto já pode mudar o título. ?
- Por quê? Eu gostava tanto de “O amor e o vizinho”.?
- Eu também gosto. Mas põe no plural.

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 17h18
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DESAFINADO


O professor de piano mandou chamar o pai e foi taxativo:
- O menino tem ouvido absoluto.
A princípio o pai não entendeu, mas o homem explicou que se tratava de um caso raro, um talento nato. O rapazinho seria, segundo o relato, capaz de reconhecer qualquer nota, proveniente de qualquer coisa, fosse instrumento, pessoa, animal ou objeto. Apertou uma nota aleatória no piano.
- Diz aí, menino!
- Ré sustenido.
- Olha aí, tô falando.
Bateu a tampa do instrumento sobre as teclas para continuar a conversa com o pai. O menino ouviu o ruído e emendou:
- Si bemol.
- É um gênio. Cuide bem do garoto.
O pai saiu orgulhoso e, de passagem pela secretaria do conservatório, já tratou de inscrever o filho em mais dois instrumentos, além de um curso de canto lírico. Vai ser maestro, imaginava. E o menino não decepcionou, aprendia tudo com a facilidade de um músico de outros tempos reencarnado naquele corpo franzino. Mas o forte dele, mostrou-se mais tarde, era o canto. Uma voz estupenda, segundo a professora, uma senhora de idade avançada que cantava como soprano de ópera, mas que, falando, quase não se ouvia. Em pouco tempo, ele era solista do coral do bairro. Vivia com as bochechas roxas, cansativamente apertadas pelas mulheres da platéia que insistiam em ver fofura em talento tão erudito. Qual não foi a surpresa do pai - e aqui não há nenhuma pergunta, mas apenas a força da expressão - ao flagrar o menino, em casa, em seu horário de ensaio, desafinando terrivelmente num trecho de música que já cantava havia tempos, antes com perfeição? Não seria necessário ouvido absoluto para constatar o erro, apenas ouvido, tamanha a desafinação. E a ela seguiu-se outra. E outra. E em poucos versos, a música estava desconfigurada, totalmente fora de tom, doía na alma ouvir. O homem analisou que não deveria cobrar o menino e que talvez isso fosse sinal de que estivesse sobrecarregado. Interrompeu o ensaio e mandou o rapaz ir brincar. No dia seguinte, depois de largar o filho no ensaio do coral, posicionou-se embaixo da janela, sem ser visto, e se esforçou para tentar identificar a voz do rapaz. Mas não pôde perceber qualquer indício de desafinação, tudo soava perfeitamente harmonioso e belo. Infelizmente, o alívio durou pouco. Durante a semana, os casos de falhas musicais foram se multiplicando, a ponto de o telefone tocar por algumas vezes trazendo reclamações de vizinhos descontentes. Parecia mesmo que o garoto se esforçava por errar as notas, sendo capaz de cantar uma música inteira sem afinar por um compasso sequer. Até que, numa tarde daquelas, o rapaz ligou da casa de um amiguinho e pediu permissão para dormir lá, no que foi prontamente atendido. Secretamente, o pai não agüentava mais tanta desafinação e a ocasião caíra como uma luva, ou como um tapa-ouvidos. Aproveitou a noite de folga e combinou com a esposa um jantar num restaurante em que há muito tempo não iam, e foi justamente no caminho que se deu o caso. Pararam num sinal fechado e o homem ouviu, ao longe, a voz desafinada do menino. Estacionou o carro às pressas e foram seguindo o som, até que acabaram na porta de um karaokê tipicamente japonês, de onde puderam avistar o rapazinho em cima do palco, aos berros. A música acabou e o garoto desceu a escadinha lateral, onde foi recebido por uma menina de feições orientais que o esperava aplaudindo muito. Ele ganhou um enorme beijo no rosto e um abraço apertado desta que parecia ser sua nova fã, ainda mais entusiasmada que as velhinhas do coral. Então foi a vez dela subir ao palco. Cantava mal, muito mal. O pai soube depois que era um doce, uma flor de lótus, mas que não suportava uma coisa, a única capaz de tirá-la do sério: alguém que cantasse melhor do que ela. Tossiu em mi e apertou uma das bochechas do rapaz. Um gênio esse menino.

Opção 2 de imagem:

(Ohhhhh...)

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 00h31
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HIPERTÉDIO


Pouca gente viu quando aquele homem de penteado impecável despontou no topo do prédio, com semblante bastante entediado. Desprezando qualquer tipo de etiqueta com que costumam atuar os suicidas tradicionais, que ameaçam se atirar dezenas de vezes, chamam a atenção dos transeuntes, esperam pela imprensa, este simplesmente abriu os braços e se atirou, com o mesmo ar de tédio com que apareceu lá em cima. Voou feito pedra pelos mais de vinte andares até o chão e feito pedra caiu, mas não da maneira apoteótica como seria esperado, mas sim abrindo na calçada um cartunesco buraco no exato formato de seu corpo. Levantou dali como que decepcionado, sem um arranhão, limpou a roupa e saiu mal-humorado, para a total surpresa de quem viu a cena. Minutos depois, ele entra em sua casa e vai até um armário onde se encontram diversas ferramentas, há anos sem uso. Vasculha até que encontra uma enorme serra, dessas que se usa para tocar como violino em desenho animado, grande e cheia de dentes metálicos. Com convicção, apóia o próprio braço num balcão de madeira e começa a serrar o pulso, mas por mais improvável que seja, nada acontece à própria pele, mas sim à pobre serra, que se despedaça dente por dente, soltando faíscas. Depois de passar duas horas aspirando o cano de escapamento do carro ligado sem sentir qualquer alteração respiratória e mais outra hora dentro de uma banheira cheia d´água com um secador ligado mergulhado nela até que se queimasse o fusível da casa, saiu, irritado, em direção à linha do trem. Ali chegando, ficou parado entre os trilhos, esperando a próxima composição que se aproximasse, o que não tardou. O maquinista tocou a buzina o máximo que pôde, mas o esquisito homem de cara fechada continuou no caminho da locomotiva até o último momento, vendo o farol aceso se aproximando rapidamente, sem esboçar qualquer emoção. Apesar da tentativa do condutor de parar, o trem chocou-se com o cidadão a uma velocidade considerável, mas seu corpo sequer se moveu, ficando a máquina e seus vagões com toda a força daquele impacto. Descarrilhamento, fumaça e gente gritando para todo lado. O homem saiu dali sem um machucado sequer, mais mal-humorado do que nunca. Neste momento, surge no céu um emblema, projetado nas nuvens provavelmente por um imenso holofote em algum lugar da cidade. O suicida mal-sucedido, faz um gesto obsceno para o sinal no céu, utilizando-se de um único dedo, e vai embora resmungando. Super-herói depressivo é caso sério.

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 23h30
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REVELAÇÃO


Lembrava-se bem de um episódio que ocorrera quando criança. Era noite e o banheiro masculino do shopping estava lotado. Havia pouco terminara uma sessão das mais concorridas. Seu pai acompanhava os dois irmãos, ele aos cinco anos e o caçula, na época ainda com três. O homem se aproximou da pia, segurou o mais velho e o levantou do chão, para que pudesse alcançar a torneira e lavar as mãozinhas. Em seguida, desceu o menino e lavou as próprias mãos. Já ia se encaminhar à porta de saída quando o filho perguntou:
- Ué, por que eu tenho que lavar a mão e o meu irmão não?
O pai respondeu, impassível:
- Porque ele não pegou no pipi.
O garoto, intrigadíssimo, emendou a questão:
- E como é que ele fez xixi sem pegar no pipi?
Indiferente à presença daqueles marmanjos cheios de maldade e, àquela altura, totalmente atentos, o homem disse em voz alta, incapaz de deixar a criança sem uma resposta:
- Eu segurei o pipi pra ele.
Secou as mãos e foram embora, enquanto alguns homens se esforçavam para segurar o riso. Lembrava do episódio com humor e um pouco de orgulho do pai, que sempre agira desta forma, colocando os filhos acima de tudo. Mas desta vez, quase vinte anos depois, estava desconfortável com a presença dele. Estavam jantando naquele restaurante, pai, mãe, irmão e um amigo, como ele costumava apresentar. Na verdade, seu namorado e que estava ali naquele dia justamente porque o rapaz pretendia contar o que julgava que o pai ainda não soubesse: que era gay. Terminado o jantar, o pai anuncia que vai ao banheiro, e o filho vê aí uma oportunidade. Ele e seu “amigo” o acompanham. Lá dentro, fazem o que têm de fazer. Mas na hora de lavar as mãos, só o amigo lava. O pai entende tudo.

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 19h58
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VOCAÇÃO


Voltou para dentro de casa a fim de buscar a carteira que havia esquecido e acabou fazendo pior: deixou a chave e bateu a porta. Era sábado de manhã e o fim de semana já começava bem. O celular, como é praxe em situações de emergência, estava com a bateria descarregada. O homem estava, como se diz por aí, no mato sem cachorro. Só lhe faltava mesmo aparecer um cachorro para piorar as coisas, um pitbull, desses que andam abandonando por aí (com muita justiça, diga-se, mas isso não se faz). Morava numa ladeira íngreme como o inferno, num bairro residencial, de modo que precisaria gastar toneladas de ATP (prestasse mais atenção na aula de biologia, caro leitor) caso quisesse alcançar o telefone mais próximo para tentar a sorte no serviço de informações da empresa telefônica tentando descobrir o número de um serviço de chaveiro. Sentou-se no banco do carro, largado aberto, já que a chave do mesmo encontrava-se no molho de chaves do qual fora separado, e tentou encontrar uma solução. Encontrou um clipe, esquecido no compartimento porta-tralhas localizado à frente do câmbio. Olhou o clipe, o clipe olhou para ele e ambos tiveram a mesma idéia absurda. Com cuidado, desdobrou o pequeno objeto metálico e, com a nítida imagem de MacGyver correndo ao som de Tom Sawer, dirigiu-se à fechadura da porta de entrada. Nunca havia feito nada parecido, não conhecia ninguém no mundo real que já tivesse realmente conseguido abrir uma porta utilizando-se de um clipe, mas, o que custa? Agachou-se até ficar com os olhos na altura da fechadura e teve uma sensação estranha, uma espécie de calafrio, uma excitação inusitada. Benzeu-se. Era um homem religioso, participativo na igreja do bairro, não gostava de calafrios. Percebia qualquer manifestação biológica independente de sua vontade como possível coisa do capeta, e sempre se benzia nessas ocasiões. Às vezes, nem o calafrio do xixi escapava, usava a mão desocupada para fazer o sagrado sinal. Mas voltemos à fechadura. Ele encaixou a pontinha do clipe no orifício da porta e foi guiado por uma espécie de intuição que não fazia idéia que tivesse. Ficou boquiaberto ao ver a porta se abrir após um ou dois toques precisos de sua habilidosa, mas até então anônima, mão. Ficou tonto com o próprio sucesso, era como se tivesse acabado de descobrir algo grandioso, essencial para sua vida. Antes de tirar qualquer conclusão precipitada, resolveu testar suas habilidades recém descobertas. Entrou, pegou as chaves, voltou para fora de casa e bateu a porta novamente. Com o auxílio do mesmo clipe, abriu-a em menos tempo do que da outra vez. Então, uma a uma, foi arrombando todas as portas da casa, sem fazer barulho ou danificar o miolo das fechaduras, inclusive as que estavam fechadas com duas voltas. Trancou tudo novamente e voltou para o carro. Era um talento nato, não restavam dúvidas. Decidiu ir mais longe. Jogou a chave no banco do passageiro e resolveu ligar o carro fazendo uma ligação-direta. Estava nervoso, mas suas mãos não tremiam, eram firmes como as de um cirurgião - se é que as mãos de um cirurgião são mesmo firmes, nunca pedira a um deles que parasse as mãos no ar para conferir, mas achou a comparação honesta. Fez a ligação-direta sem problemas, apesar de não ter nenhum conhecimento anterior sobre o funcionamento de um carro. Simplesmente o fez, confiando no próprio instinto. Benzeu-se novamente, enquanto dirigia o carro na direção de um parque da cidade. Queria um pouco de ar puro para pensar, mesmo que fosse o ar puro poluído dos parques da cidade. Sentou-se num banco e, enquanto divagava, percebeu que uma senhora sentara-se ao seu lado. Quase sem pensar, foi capaz de abrir a bolsa da mulher, pegar sua carteira e fechar a bolsa novamente, sem que ninguém se desse conta, mesmo estando o parque lotado de pessoas passando para lá e para cá. Olhou a carteira e devolveu para a incrédula senhora, dizendo que ela a havia deixado cair. Não entendia o que estava acontecendo, mas aquilo lhe dava um intenso prazer. Era um homem bom, temente a Deus, caridoso, gostava de ajudar o próximo. Mas como negar aquele talento estupendo, aquela vocação indiscutível ao crime que acabara de descobrir em si? Se Deus assim queria, quem era ele para abdicar do seu destino?
O funcionário público Gustavo chegou em casa por volta das oito horas da noite e o que viu o deixou perplexo: na mesa da cozinha, encontrou um jantar completo, com entrada, prato principal e um bilhete avisando que a sobremesa estava na geladeira. Pratos, copos, talheres, guardanapo, tudo cuidadosamente organizado, assim como o resto da casa, que estava limpa, arrumada, cheirosa, um brinco mesmo. Gustavo morava sozinho e não tinha empregada. Outros moradores do bairro passaram a ter surpresas semelhantes. Sem que houvesse qualquer sinal de arrombamento, eram surpreendidos por jantares, roupas passadas, camas arrumadas, flores nos vasos, sem aviso prévio ou explicação posterior. Alguns carros tiveram seus problemas mecânicos consertados de um dia para o outro, pintura retocada, amassados reparados. Frequentadores do parque da região relataram encontrar suas carteiras, por diversas vezes, com mais dinheiro do que havia antes, e em alguns casos, com pequenas imagens de santos como Santo Expedito, São Pedro e Nossa Senhora Aparecida, cuidadosamente colocados nos pequenos plásticos destinados aos documentos. Uma das vítimas chegou a ter o velho RG atualizado para uma segunda via, com foto mais atual e plástico protegendo. Segundo as autoridades, o meliante continua foragido.

Opção de foto 2:


nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 10h58
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PSICOTERAPEUTA


Chegou ao consultório minutos antes do psicólogo. Estava adiantado ele, não atrasado o médico. O homem logo apareceu, cumprimentou o novo paciente com a gentileza cuidadosa desse tipo de profissional - talvez com o medo de que algum paciente os morda caso ajam de maneira errada - e mandou que esperasse numa ante-sala. Ele ficou lá, curioso com o novo ambiente. Reparou nas revistas, muitas e recentes, prestou atenção na mesa da secretária (ele tinha uma secretária!), na própria secretária - uma mulher jovem, bonita, timidamente vestida, com ar inteligente - na decoração moderna, nas caixinhas do som ambiente. Tudo muito novo e de bom gosto. Na hora marcada, pontualmente, foi chamado a entrar. O psicólogo, ou psicoterapeuta, como preferia ser chamado, indicou que se sentasse numa das enormes poltronas da sala e pediu licença para ouvir um recado na secretária-eletrônica, antes que começassem a sessão. Era um convite para uma palestra no Canadá. Fora boa a indicação do médico, pensava. Assim vai mal, assim vai mal... O homem se ajeitou na cadeira e começaram a falar. O cara é bom, se preocupava o examinado. Conduziu a conversa cuidadosamente, indicando o rumo dos assuntos sem invadir a privacidade do paciente naquele primeiro encontro. Deu alguns poucos palpites, todos certeiros, como se já se conhecessem há muitos anos. Pensou que aquele fosse, talvez, o melhor psicólogo, ou psicoterapeuta (ele merecia o respeito) que poderia ter encontrado na cidade. Ou no país. Ou, quem sabe até, no Canadá. Achou, inclusive, que o cara era bonitão, ou “boa pinta”, como seria o máximo que poderia adjetivar sobre qualidades estéticas masculinas. Quando estavam terminando a conversa, passados um ou dois minutos do tempo estipulado, sem qualquer reclamação do médico a respeito, o homem chegou à conclusão, que imediatamente repassou ao psicoterapeuta:
- Olha, doutor, gostei muito, mas não vai dar certo. Você tem um outro psicólogo pra me indicar?
O médico não perdeu o ar tranquilo.
- Claro, eu indico outra pessoa, mas o que aconteceu? Você não gostou da sessão?
- Adorei, foi ótima. O problema é esse.
- Não entendi.
- A sessão foi ótima, o consultório é novinho, você é inteligente, a secretária é gostosa, não vai dar certo. Eu preciso de um psicólogo pior, num lugar feio, sem secretária.
- O problema foi a secretária? Ela foi grosseira?
- Não, gentil feito um bezerrinho. Olha, doutor, eu venho aqui com o maior complexo de inferioridade, me achando o pior “loser” da face da terra, chego aqui, vejo isso tudo, essa prosperidade toda, tô arrasado.
- Calma, não fica assim, vamos conversar a respeito disso.
- Olha aí, você nem me enxota depois que acaba o tempo, é eficiência demais pra minha cabeça, me indica outro. Um bem ruim.
- Espera, você tá se deixando levar pelas aparências. Eu não sou tão bom assim.
- Ah, não? E a palestra no exterior? Eu nunca dei palestra no exterior. Nem no interior. E eu sou bem mais velho que você.
- Eu posso ser um bom palestrante e um mau psicólogo. Já pensou nisso?
- É nada, eu tirei a prova. Fiz a sessão inteira, você não deu um deslize.
- Eu posso ser um bom psicólogo, mas ser ruim na vida pessoal, hein? Ahá!
- Ah, é? E quem é aquela gostosa ali no porta-retrato, com todo o respeito?
- Minha mulher...
- E ainda tem a secretária, se quiser variar. Não vem com esse papinho, você é um vencedor!
- Não sou!
- É sim. Quero um “loser” como eu. Me indica aí.
- Eu tenho mau-hálito!
- Tem nada, tá conversando comigo há uma hora e eu me sinto numa plantação de hortelãs...
- Tô ficando careca!
- Com essa juba aí? Conta outra.
- Tenho unha encravada!
- Deixa eu ver!
O psicólogo tirou o sapato correndo, mas não deixou de dobrar a meia cuidadosamente e colocá-la dentro do calçado antes de mostrar o pé.
- Cadê?
- Essa aqui, ó.
- Não tem nada aí.
- Acho que já curou... Mas tava encravada! Nojentona.
- Olha aí, até a cicatrização é boa. Vencedor! Vencedor!
- E a minha miopia?
- Cadê os óculos?
- Eu ronco!
- Grande coisa...
- Tenho pau pequeno, quer ver? Quer ver?
- Não, obrigado, só me indica um psicólogo, tá certo?
O médico se acalmou, soltou o zíper da braguilha e tentou retomar o ar tranquilo.
- Desculpe. Eu desisto. Vou indicar um mau profissional pra você.
- Péssimo, de preferência.
- Tudo bem, tudo bem.
Abriu uma agenda, procurou algum nome e anotou o número num papel, que entregou ao paciente.
- Toma, liga pra esse aqui. Era meu aluno de mestrado, péssimo, burro feito uma porta.
- Aluno de mestrado? Isso é o pior que você consegue?
- Pode ligar sem medo. Eu garanto que você vai sair de lá pior do que entrou.
- Ótimo. Muito obrigado, viu.
- Você não quer repensar? Eu posso te ajudar.
- Não, é muita humilhação. Mas obrigado por tentar.
- Me dá uma chance. Mais uma sessão pelo menos?
- Não sei...
- Por favor? Eu me esforço pra ser pior.
- Você não consegue...
- Me deixa tentar.
Toca o telefone, a secretária atende e fala alguma coisa. Depois, grita para o psicoterapeuta:
- Doutor, é da faculdade! Querem dar um prêmio pro senhor!
O paciente se levantou e saiu correndo, parece que chorando. A secretária recebeu uma bronca leve, mas com todo o respeito. Era um gentleman, além de tudo.

nognogueira@uol.com.br

Escrito por Marcelo Nogueira às 12h14
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CONVERSA COM A MÃE


- Oi, filho. Tá no trabalho?
- Tô. Você no MSN?
- Pois é, você sabe que eu sou uma mãe alertada.
- É “antenada”, mãe.
- Você entendeu. Tá corrido aí?
- Mais ou menos. Tô tentando fazer o conto dessa semana.
- Ah, é, você disse que ia publicar na quarta, né? É hoje.
- É, mas tô sem idéia.
- Conta sobre quando você comeu nhoque do chão.
- Pra que eu iria contar isso pra todo mundo? E eu era criança, você devia esquecer isso.
- Imagine. Tão bonitinho.
- É nojento.
- Mas bem que você comeu tudo.
- Era o último prato! Bom, mas isso não dá conto.
- Escreve sobre quando você fingiu que era um menino de rua triste pra conseguir vender seus chaveiros na porta de casa.
- Eu precisava do dinheiro!
- Você gastou em sorvete.
- Chicabon, mãe. Não é qualquer sorvete. Mas isso não dá uma boa história.
- Então fala de quando a sua irmã nasceu, que você encheu os olhos dela de detergente, por ciúmes.
- Eu não fiz isso!
- Fez sim. E colocou o detergente na mão dela, pra eu achar que ela mesmo tinha feito.
- Por que vocês ainda falam comigo?
- Ela chorava bolhas, coitada.
- Você quer me deixar com sentimento de culpa?
- Você tá rindo, tenho certeza.
- Bolhas? Hahahahahahaha.
- Já sei: por que você não usa essa nossa conversa como conto? Publica a nossa conversa!
- Não, mãe. É um blog de contos! Não é um diário.
- Você não vive fazendo conto de diálogo? Isso é um diálogo.
- Sim, mas tem que ter um assunto.
- O assunto é esse: a falta de assunto.
- Isso é muito batido, todo mundo já fez.
- E vai você querer bancar o diferente?
- Não, isso não. Publicar uma conversa de MSN como se fosse conto seria o fundo do poço. Eu vou pensar em alguma coisa.
- Eu sei que vai. Você é muito criativo.


Escrito por Marcelo Nogueira às 11h21
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"RESGATE DE REFÉNS"


Em meio a tanta discussão sobre o crescente problema da segurança no país, achei que não poderia ficar alheio ao assunto. Outro dia, cruzei com uma viatura da polícia, não sei se civil, militar, metropolitana, federal, secreta ou apenas “polícia”, onde se lia no vidro a designação: “RESGATE DE REFÉNS”. Já tinha visto carros deste tipo com dizereres como “DEIC” ou “GARRA”, mas nada tão explícito quanto isso. “RESGATE DE REFÉNS”. Não sou um especialista em segurança pública, mas me pergunto se toda esta sinceridade estampada na viatura não poderia trazer problemas para a operação da polícia. Acompanhe comigo. Imagine um bandido que mantém um refém num cativeiro por semanas, olhando pela janela e vendo se aproximar uma viatura com o aviso em letras garrafais: “RESGATE DE REFÉNS”. Ele sai correndo na hora, não tenha dúvidas, caro leitor. Ou, numa outra situação, imagine o caso de a viatura designada para o “RESGATE DE REFÉNS” já estar sendo usada no momento em que se desvenda um novo cativeiro. O policial responsável precisa ficar esperando a viatura correta voltar para, só então, ir resgatar o refém? Imagino que sim. Alguém pagou - no caso, com dinheiro público - para uma viatura trazer escrita a frase “RESGATE DE REFÉNS” em sua lataria, não faria sentido usar outra para este fim. Motivaria a abertura de uma nova CPI, no mínimo. Por isso, contra este que acredito ser um problema velado, não divulgado das polícias brasileiras, minha modesta sugestão é simples. A idéia seria passar a usar disfarces, dissimulações astutas, ao invés de dizer a verdade assim, tão escancaradamente, aos meliantes. Voltemos ao exemplo: o bandido está lá, no cativeiro, como dissemos antes, e olha pela janela. Desta vez ele lê, no mesmo automóvel da polícia: “AUXÍLIO A VELHINHAS”. Ele simplesmente checa a idade da refém que, constrangida, responde “42”, e fica tranquilo, assistindo ao noticiário na TV, com a arma repousando na mesinha de centro, facilitando imensamente sua captura por parte dos matreiros policiais. Ele pode processar a polícia alegando que não vale, que assim não brinca mais, mas acredito que nossas autoridades saberiam lidar com este novo problema. O mesmo raciocíonio poderia ser aplicado em outras áreas da instituição. A viatura onde hoje se lê “NARCÓTICOS”, por exemplo, poderia trazer algo como: “SALVAMENTO DE GATOS EM ÁRVORES” ou simplesmente “SABIA QUE O SABIÁ SABIA ASSOBIAR?”, já que no caso dos viciados e seus fornecedores, já um pouco alterados pelo tóxico, bastaria confundí-los um pouco mais para efetuar a prisão. Não sei, são apenas idéias de um cidadão consciente e atuante que presa pelo bem-estar da sociedade em que vive.

Escrito por Marcelo Nogueira às 10h54
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