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Contos do Intervalo - os contos escritos nos intervalos do dia de um publicitário |
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CONTOS DO INTERVALO - COMUNICADO AOS LEITORES

O blog Contos do Intervalo vai passar um período inativo. Ou sabático. Ou fechado para balanço. O motivo é o mais simples de todos: falta de tempo. Tenho tentado manter a frequência, mas está muito difícil, então decidi parar por um tempo, até as coisas se acalmarem aqui na agência. Achei melhor fazer isso do que continuar atrasando a postagem ou ter que, de vez em quando, publicar textos abaixo da qualidade que eu gostaria de manter aqui. Não sei por quanto tempo, mas espero não passar de dois meses de ausência. Quando voltar, eu envio um email avisando a todos os que estiverem no meu mailing. Se você não está no mailing mas quer receber este email avisando do retorno do blog, me avise pelo nognogueira@uol.com.br. Obrigado a todos e até a volta.
 Marcelo Nogueira.
Escrito por Marcelo Nogueira às 11h42
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CONSIDERAÇÕES SOBRE A VIDA
 Consideração número 1: qual é a daquele cumprimento “adivinha quem é”? Você está parado, alguém chega por trás, tampa os seus olhos e fala “adivinha quem é”. Se você erra, a pessoa fica chateada. Você tampou os meus olhos! Como eu ia saber? A não ser que a pessoa tenha mãos tão peculiares que seja impossível não reconhecer. “Ah, três dedos, é o Zé!”. Ou então que a pessoa que adivinha seja um cego, que tem o tato superdesenvolvido. Um cego, sim, pode reconhecer uma pessoa apenas pelo tato, sentindo a palma da mão de alguém contra as pálpebras. Mas por que tampar os olhos dele?
Consideração número 2: acho estranho um certo tipo de careca, que é aquele que age como se nada estivesse acontecendo. Ele continua cortando o cabelo normalmente, no comprimento de sempre, penteando da mesma forma, como se tudo estivesse normal, apenas faltando um pedaço, um pequeno deserto, bem no centro. Eu tenho amigos assim, mas nunca tive coragem de criticar. Tenho medo que eles realmente não saibam. De repente o cara tem um espelho baixo em casa, sei lá, e ele simplesmente não vê o topo da cabeça. Se penteia normalmente e vai trabalhar. Imagine se eu falo alguma coisa e o cara me responde assustado: “como assim? Que careca?”
Consideração número 3: o Brasil só funciona depois do Carnaval. Assim como este blog, hospedado no país em questão. Bom feriado, depois a gente se vê.
Escrito por Marcelo Nogueira às 10h13
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ENTREVISTA
 _ Nome completo. _ Eduardo de Souza Azevedo. _ Idade. _ 31. _ Sexo. _ Masculino, pô. _ Cargo atual. _ Gerente de vendas. _ Qualificações extra-curriculares. _ Inglês intermediário, computação, fiz um curso de teatro uma vez, serve? _ Tem alguma doença crônica, alguma incapacitação? _ Não que eu saiba. _ Por que você se acha apto para a função? _ Porque eu tenho atitude, alguma experiência e tô bem interessado. _ Como você exerceria a sua liderança numa situação de risco? _ Eu tentaria motivar o pessoal e passar segurança. _ Se você fosse uma fruta, que fruta seria? _ Hum... Uva? _ Sei. Bom, acho que tudo bem. Você tá qualificado. Eu aceito o convite pra jantar. Está cada vez mais difícil comer a menina do RH.
Escrito por Marcelo Nogueira às 15h32
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O TROGLODITA E O CÁLCULO AVANÇADO
 Aquele era um homem-das-cavernas muito especial. Não apenas pelo fato de ser um homem-das-cavernas, coisa que por si só já tornaria alguém especial, mas principalmente por ser um homem-das-cavernas capaz de fazer contas de até oitocentos decimais, de cabeça, isso milhares e milhares de anos antes de o decimal, e até mesmo os números, terem sido inventados. Tudo começou quando ele olhou para as próprias mãos e contou o número de dedos que havia nelas: oito! (dois se foram na boca de um tigre dentes-de-sabre). Logo em seguida ele calculou quanto haveria de dedos para cada um dos trinta e nove tigres dentes-de-sabre que atuavam naquela região, caso fossem divididos igualmente entre eles. A conta era um número que começava por zero, passava por uma vírgula e terminava – se é que terminava – numa sequência de números que o troglodita levaria cerca de duas horas para enunciar, caso suas cordas vocais já estivessem evoluídas o suficiente para desenvover a linguagem. Soltou um grunhido de surpresa. Sua facilidade com os números era incrível, ao ponto dele literalmente vê-los, fisicamente, numa sinestesia inexplicável, ainda mais para os padrões da época. O oito era visto por ele como uma mistura entre azul turqueza, pontos cor de rosa e dois arcos luminosos que se cruzavam. O quinze aparecia como uma fonte de amarelo cintilante e marrom, despejando sua cor num lago prateado. O trinta e nove era um imenso sovaco peludo. Ele resolveu que dividiria seu dom com toda a humanidade, todos os 456 seres-humanos existentes na época, na maioria, seus parentes. Após uma noite em claro de muitos cálculos e rabiscos na parede de pedra da caverna, ele terminou o que parecia ser o esboço detalhado de um caça F5, com o qual pretendia invadir a tribo rival, que morava para lá do rio, e ensinar uma lição para aqueles ladrões de vermes alimentícios. Juntou o maior número de homens que pôde e tentou passar as instruções para que começassem a construção ainda naquele dia, mas um dos integrantes da turba deu uma contra-proposta de que, ao invés de montar o caça, eles fizessem cocô nas próprias mãos e jogassem na cabeça do pessoal da outra tribo, idéia que fez bastante mais sucesso e foi colocada em prática imediatamente. Desmotivado com aquele primeiro fracasso, ele levaria mais alguns dias para voltar a usar seus dons matemáticos. Mas numa manhã bastante feliz, em que apenas uma perna, dentre todas as da tribo, havia sido amputada a dentadas por algum predador, ele se sentiu inspirado e inventou o computador pessoal. Montou um belíssimo PC, usando folhas de bananeira, lascas de pedra e um sapo vivo e chamou os amigos para jogar Tetris, mas sua invençao foi ofuscada, pois naquele exato momento, outro membro do grupo mostrava a todos a roda, objeto que acabara de inventar, muito mais fácil de manipular, com menos comandos e que nunca dava pau, o que acabou acontecendo com a criação concorrente, mesmo sendo esta equipada com a moderníssima versão de sistema operacional batizada de Windows 15000 A.C.. Foi então que ele percebeu que era um hominídeo à frente do seu tempo. Jamais seria compreendido por aqueles bruta-montes comedores de cérebro de macaco, pensava, enquanto degustava um cérebro de macaco. Ele calculou que, com um pouco de sorte, se passasse seu talento adiante copulando com o máximo de fêmeas possível (primas, tias, avó, etc), seus dons matemáticos e criativos talvez pudessem ser apreciados dali a oito mil, oito mil e quinhentas gerações. Poderiam até ser dons comuns, presentes na maioria da população, só dependia dele e de seus encantos como galanteador. Certa noite naquela era geológica, ele se aproximou de uma linda troglodita que contemplava o céu coçando o bigode e, após fitar o firmamento por poucos segundos, disse a ela, em linguagem primitiva de sinais: “tá vendo essas estrelas, broto? São trezentas e setenta e oito mil e quarenta e cinco, só nesse pedaço que a gente consegue ver, e não brilham mais do que os seus olhos”. Ela abriu a boca, mas ao invés de falar ou gesticular, abocanhou um inseto que passava. É claro, seu plano não deu certo, onde já se viu nerd comer alguém? E o resto é história, deu no que deu.
Escrito por Marcelo Nogueira às 01h35
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CONTO NATALINO
 O barulho abafado de asas batendo era o aviso que a menina esperava para se aproximar da lareira da velha casa onde vivia. Com a cabecinha tombada para o lado, ela podia observar o belo passarinho que descia pela chaminé e pousava na beirada do ninho - que montara numa reentrância da estrutura interna da lareira, várias semanas antes - para poder, com o pequeno bico, alimentar três minúsculos filhotes, que berravam de fome. Ela assistia a tudo bem quietinha, sem se mexer, para não assustar os protagonistas daquela cena que tanto gostava de presenciar diariamente. Mas a tranquilidade que antes sentia em seu coraçãozinho, agora parecia dar lugar a uma inquietação crescente. Era dezembro, e ela bem sabia o destino das lareiras num determinado dia daquele mês. Com uma inteligência aguçada, apesar da pouquíssima idade, calculava a menina que aqueles pobres filhotinhos deveriam ser incrivelmente frágeis, dado seus pequenos tamanhos e a aparência translúcida de suas peles. O ninho, podia observar bem de perto, não passava de um amontoado de pequenos galhos e folhas entrelaçados por bico, não por mão humana, coisa que deveria se desfazer ao mais delicado toque. Como poderiam, então, os integrantes daquela peculiar família sobreviver ao inevitável esbarrão que estava por vir, proveniente do corpo enorme e gordo de um senhor na descendente por tão apertado caminho? Não sobreviveriam, era fato, e ela sofria antecipadamente. Enviara, por ser este o único canal de comunicação conhecido, dezenas de cartinhas ao tal velhinho, avisando da presença do ninho e de seus habitantes, com recomendações de cautela ou até de uma possível rota alternativa, mas não recebera até agora nenhuma resposta ou qualquer sinal que indicasse ter o destinatário recebido a importante mensagem. Sua aflição só crescia, dia após dia. Até que a noite de Natal chegou, como era inevitável, e a menina sentou-se ao lado da lareira, com uma expressão séria como pouco se vê no rosto de crianças daquela idade, preparada para passar a noite inteira ali, caso fosse necessário. Seu plano emergencial, elaborado às pressas, consistia em gritar ao menor sinal de aterrisagem no telhado, com o máximo da força de seus pulmões - o que não era pouca coisa - para que o enorme visitante tomasse o máximo de cuidado ao descer. Era o que podia fazer, nada mais restava. A família inteira já havia chegado, e já estava ciente da questão, quando ela ouviu um sininho de Natal badalando. Rapidamente, gritou para dentro do vão: “Papai Noel! Papai Noel!”, mas não recebeu resposta. Eis que a porta se abre. A porta mesmo, de entrada. E por ela entra o Papai Noel, de roupa vermelha, barba branca e uma estranha jovialidade na pele, que não seria questionada, tampouco sua incrível semelhança com um primo mais velho da garotinha. Ela correu e abraçou o homem, não poderia estar mais feliz, por ver o velhinho e pela certeza de que os passarinhos estavam a salvo. Certamente, Noel havia lido suas cartas e por isso sensatamente optara por entrar pela porta. Presentes dados, hô-hô-hôs entoados, o senhor se despediu e saiu pelo mesmo lugar por onde entrou, deixando a menina livre para abandonar seu posto e aproveitar a festa junto das outras crianças. No dia seguinte, logo cedo, ela enviou uma outra cartinha, agradecendo pela consideração e sugerindo que o velhinho cogitasse a porta como opção definitiva de entrada, dali por diante. Afinal, assim como aquele, centenas de outros passarinhos poderiam ter a mesma idéia, justamente na época natalina, e estariam sujeitos aos mesmos riscos. Pensou em colocar no texto uma referência à circunferência abdominal do homem, para melhor argumentar que pela porta o processo seria, além de tudo, bem mais confortável do que pelas estreitas chaminés, mas acabou censurando essa parte. Achou que seria indelicado de sua parte.
Feliz Natal. Marcelo Nogueira.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 10h19
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PRIMEIRA BARBA
 O garoto acordou e foi para o banheiro. Ainda com sono, jogou água no rosto e olhou a própria imagem no espelho. E o que pôde ver naquela manhã o deixou maravilhado: um pêlo, bem no queixo. Não um pêlo qualquer, como os que formavam a imperceptível penugem que ele vinha cultivando há algum tempo. Desta vez era um pêlo significativo. Um pêlo incontestável. Ele se arrumou como sempre, pegou o material do colégio, beijou a mãe mas não foi estudar. Assim que virou a esquina, correu para o cabeleireiro. Ou barbeiro, já que se tratava do velho salão de um português conversador, figura antiga no bairro. O moleque entrou, sentou-se na cadeira com apoio para os pés, onde se podia ler o nome do fabricante esculpido em ferro, e disse para o homem, sucinto: _ Barba. O português achou graça, mas manteve a expressão séria de quem sabe respeitar o freguês. Pegou a minúscula bacia, preparou uma espuma bem grossa e encheu o rosto do rapaz de branco. Tirou a navalha do estojo de couro, afiou bem numa tira e começou pela costeleta. O fio deslizava removendo a espuma e revelando a mesma pele de antes. O menino não se agüentava de tanta satisfação. Em seguida, o velho passou para a costeleta oposta e acertou a linha que delimitava o cabelo do rosto. Um senhor agora esperava a sua vez, folheando uma revista com a Magda Cotrofe na capa. Quando a lâmina se aproximava do queixo, o rapaz fez um gesto indicando que o português parasse. E, olhando pelo espelho o resto de espuma que agora só cobria o queixo e a pele acima dos lábios, anunciou sua decisão: _Pode parar. Eu vou deixar o cavanhaque.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 15h57
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PEQUENAS HISTÓRIAS SOBRE JOSÉ SARAMAGO
 José Saramago andava de carro por uma grande avenida quando ouviu no rádio o aviso de que um veículo transitava na contramão, naquela via. Ele passou então a dirigir com mais cautela, para evitar uma colisão. Nada de mal aconteceu.
Outra história: um amigo do José Saramago cruza com ele na rua e lhe faz um convite: _ Você quer vir à festa de quinze anos da minha filha? José Saramago aceita o convite e leva um lindo presente para a debutante.
Mais uma história: José Saramago encontra um amigo na rua que comenta com ele estar lendo um livro de lógica. Saramago não se interessa pela obra, por julgar tratar-se de literatura menor.
Outra história: às vésperas de uma viagem ao Rio de Janeiro, José Saramago é advertido por um amigo brasileiro: _Cuidado, aqui os taxistas voam. Ao chegar à cidade, Saramago entra num táxi que, conforme o previsto, acelera acima da velocidade permitida. Saramago pede a ele que desacelere, no que é prontamente atendido pelo profissional.
Mais uma: certo dia, José Saramago dirigia uma perua de marca “Besta” pela estrada, quando foi parado por um policial. O homem disse, secamente: _Os documentos da Besta. José Saramago saca os documentos do veículo e os entrega ao oficial, que em questão de minutos libera o escritor para que continue seu trajeto sem maiores problemas.
Outra história: o carro de José Saramago apresenta problemas e ele vai ao mecânico, acompanhado de seu filho, ainda criança. O mecânico examina o automóvel e diz: _ O problema é no freio, vou ter que mexer no burrinho. José Saramago concorda com que o serviço seja feito e o carro fica em perfeitas condições.
Aproveitando a ocasião, José Saramago leva seu carro para consertar o pisca-pisca, que havia queimado. O eletricista efetua o reparo e pede para que Saramago avalie o resultado. Ele liga o pisca-pisca e pergunta ao escritor se o equipamento está funcionando. Saramago, do lado de fora do veículo, vê a luz piscante e responde: _ Funciona.
Agora uma história polêmica: José Saramago estava no motel com a amante, quando seu celular toca. Ele olha para o aparelho e lê o nome da esposa no visor. Obviamente, não atende a ligação. Mais tarde, em casa, Saramago dá uma desculpa perfeitamente convincente e a mulher não desconfia de nada.
Outra: certa vez, José Saramago foi incumbido de escrever uma matéria para o Diário Lisboeta, cobrindo um terrível acidente aéreo. Um avião havia caído no terreno de um cemitério. Segundo a matéria de Saramago, foram 132 mortos, o que incluía os passageiros e toda a tripulação. Ele nunca se esqueceu daquela terrível tragédia.
Para terminar: no elevador, estão José Saramago e um casal desconhecido. De repente, sem conseguir conter a própria fisiologia, o escritor deixa escapar uma sonora flatulência. Indignado, o homem se manifesta. _ Não tem vergonha? Fazer isso na frente da minha mulher? Saramago responde, encabulado: _ O senhor me desculpe. Estou terrivelmente envergonhado.
Moral da história: piada de português com o José Saramago não tem a menor graça.
Veja as piadas originais clicando AQUI.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 12h23
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E ASSIM CAMINHA O CHARLES CHAPLIN
 Charles Chaplin saiu da festa à fantasia uma hora depois de ter dispensado a carona, a fim de tentar consolidar uma promissora paquera, que no fim das contas, não dera certo. Uma bruxa, pensava, sem nenhuma referência à fantasia da mesma, que na verdade era de odalisca. Ao invés de tentar convencer outra boa alma a que o levasse em casa, resolveu que iria à pé, apesar da longa distância. E assim foi, cantarolando e se esforçando para manter o andar de calcanhares juntos e pontas dos pés afastadas, enquanto girava uma bengala. Caminhou sem sair do personagem por uns dois quarteirões, chamando a atenção de alguns seguranças em suas guaritas e de um ou outro motorista que por ali passava àquela hora da matina. Aquilo devia configurar, sem sombra de dúvida, um recorde. Já ouvira falar das categorias mais absurdas de recordes, como “maior número de pregadores presos ao rosto” (o recorde é de Garry Turner, com 145) ou “maior pêlo na orelha” (do indiano Radhakant Bajpai, com pêlos de até 13,2 centímetros, que, dizem, o impedem até hoje de ouvir a notícia de que o recorde é seu) com certeza haveriam de aceitar a categoria de “maior distância percorrida imitando o Charles Chaplin”. Sorriu com a idéia absurda, mas de repente passou a vislumbrar a verdadeira possibilidade de estar fazendo algo inédito na história da humanidade, na chance iminente de figurar no Guiness ao lado de lendas que, como ele agora fazia, ousaram quebrar os limites da capacidade, resistência e até higiene humanas. Girou a bengala mais rápido e apertou o passo, confiante. O recorde agora era uma possibilidade real e palpável. Três quarteirões se passaram, quatro, no meio do quinto, um cachorro latindo quase o tirou da performance, mas ele continuou. A maquiagem branca começou a derreter quando passou na porta de casa, mas ele não parou. Só pensava no recorde. Uma hora mais tarde, numa parte da cidade que já não conhecia tão bem, foi obrigado a interromper o andar num farol fechado de uma grande avenida. Algumas pessoas já começavam a popular as calçadas, a caminho do trabalho, e se divertiam com o famoso cineasta. Ele distribuiu alguns sorrisos de boca fechada e atravessou assim que a luz verde permitiu, torcendo para que aquela pausa no percurso não lhe custasse o prêmio. Mas assim que tocou a calçada do outro lado, ouviu um som que lhe causou certa preocupação. Um ruído de arrastar de pés parecido com o que seus próprios sapatos emitiam havia mais de uma hora. Olhou para trás e sentiu gelar a espinha: seguindo seus passos, provavelmente desde a festa, estava um outro Charles Chaplin, algum colega de trabalho, que agora não conseguia reconhecer, mas que com toda a certeza se revelava uma ameaça. Apesar de ser um personagem reconhecidamente mudo, arriscou falar. - Oi, colega. - Boa noite. - Você veio andando assim desde a festa? - Claro. Bem atrás de você. - E porquê? - Por brincadeira. Achei divertido e imitei. - Certo, mas agora chega, né? O outro se irritou com a bronca. - Chega por quê? Por acaso você é dono dos direitos de imitação do Charles Chaplin? Eu imito o Charles Chaplin onde eu quiser, tá entendendo? - Bom, azar o seu. Assim, continuaram andando juntos por várias quadras, ambos de cara amarrada. Num determinado momento, o homem pensou em iniciar um duelo de bengalas, mas achou que não devia parar de girar a sua, para não perder a marca. Afinal, infelizmente, seu adversário ainda estava na briga pelo recorde, soubesse ou não de suas intenções com o Guiness, já que também mantivera a atuação de Chaplin durante todo o tempo em que conversaram. Calcanhares juntos, pontas dos pés separadas, a bengala em círculos. Se esforçou em andar o mais rápido que podia daquela maneira, ficando ainda mais parecido com o original, em velocidade acelerada de película antiga, para tentar desanimar seu oponente. Já amanhecia quando resolveu olhar para trás e encontrou o sósia a menos de quatro metros de distância, no mesmo caminhar de pinguim de antes, o sorrizinho de boca fechada intacto. Um recorde não haveria de vir fácil, pensou. Radhakant não desistiria. Pessoas os acompanhavam pelas ruas, apontavam dos ônibus, fotografavam das janelas. Chegou a receber esmolas mais de uma vez, que aceitou de bom grado. Mas já estava muito cansado, pensava mesmo em desistir e deixar a glória para o outro. Até que, não se sabe se pela gradativa diminuição dos níveis de álcool no corpo ou se apenas por perder o encanto pela disputa, o Chaplin concorrente parou na sarjeta, levantou o indicador e foi embora dentro de um táxi, sem dar qualquer explicação ao seu rival. Então ele deu mais cinco ou seis passos para garantir o recorde e resolveu que já era hora de parar. Sentou-se para descansar e ganhou os aplausos de um senhor que alimentava os pássaros. Agora, bastava colher os louros e entrar para a eternidade, seu lugar no Guiness já estava garantido. Acontece que, como o leitor mais bem-informado já deve ter previsto, acabou que ele não entrou para a eternidade coisíssima nenhuma. Para ser considerado um recorde e entrar para o invejado livro, o acontecimento tem que ser oficial, testemunhado e reconhecido pela comissão julgadora da instituição, o que nem seria o maior dos seus problemas. O caso é que o recorde de “distância percorrida imitando o Charles Chaplin” já existia e pertencia a um japonês, sempre eles. Para superar a marca atual, ele teria que ter caminhado daquela maneira por mais oitenta e três quilômetros e trinta e sete metros. E, sim, a parada no farol o teria desclassificado. Irritado com o fracasso, ele espetou dois pães, fez com que dançassem em cima da mesa e depois os comeu vorazmente. Nem deveria ter tentado, pensou. Recorde é coisa séria, é coisa para profissionais.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 01h18
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ENCONTRO ÀS CEGAS
 O rapazinho chegou à lan-house (ah, a modernidade...) ofegante e suado, as espinhas reluzindo. Após duas semanas de contatos estritamente virtuais, finalmente tomara a coragem necessária para marcar o temido encontro cara-a-cara com aquela da qual, de fato, só conhecia o codinome: “jujuba348”. Trezentas e quarenta e sete “jujubas” tiveram que passar por aquele servidor de Internet para que ele pudesse, se tudo desse certo, conhecer pessoalmente aquela jujuba específica, a de número 348. Chegara um pouquinho atrasado, havia cogitado mesmo não aparecer, mas lá estava. A tal jujuba também já devia estar por ali, pensou. É pontual, ele sabia, a garota havia revelado anteriormente numa das conversas. Começou a vasculhar o local com os olhos, mas não avistou ninguém que fosse condizente com o que imaginava ser aquela de quem viera ao encontro. Principalmente porque, nesta primeira olhada, não havia avistado ninguém que fosse mulher, o que fazia começar muito mal aquela situação, na sua opinião. Anteriormente, já havia marcado de conhecer duas outras garotas na mesma situação, que no final se revelaram menos femininas do que aquela lutadora de judô. Foram elas: a “Biluzinha”, que hoje respondia pelo nome de Daniel e a “GatinhaSexy”, o Julião, que, aliás, estava presente no recinto e mandava um tchauzinho animado. Foi justamente atrás do Julião - ou GatinhaSexy - que o ansioso rapaz avistou a primeira e única garota naquele ambiente. Ela cruzou olhares com ele e sorriu. Nem precisou decidir se arriscava falar com ela ou se saía correndo, ela veio na sua direção. _ “EvilParanoid”? Era seu codinome. Ele se espantou, ficou ruborizado. _ “Jujuba348”? Era ela. O rapaz se esforçou ao máximo para tentar esconder a decepção absoluta que sentia. Não queria ser grosseiro. _ Você veio sem o boné – ela reclamou. _ Meu cachorro vomitou nele, foi mal. _ O Bin Laden? _ É, o meu poodle. _ Foi difícil reconhecer você sem ele. Ele olhou para baixo e não respondeu nada. Ela percebeu o que aquilo significava. _ O que foi? Achou que eu fosse diferente, né? _ Olha, pra falar a verdade, um pouco... _ Acontece. A gente só se conhecia pela Internet. _ É... Novo silêncio. Então ele continua, incapaz de conter o desabafo. _ Olha, você falou que era loira, de olhos azuis. _ É. Eu falei. _ Você disse que era alta, magrinha, que tinha complexo por ter os seios muito grandes pra sua idade... _ Foi, eu disse tudo isso mesmo. _ Aí quebrou as minhas pernas, pô. Sacanagem... Balançou a cabeça para os lados, numa reação de desgosto. _ Mas você também disse um monte de coisas: que era alto, forte, que tinha dezoito anos, que tinha carro... _ Sim, claro que eu falei. É o que todo mundo faz, você queria que eu dissesse que eu sou baixinho, gordinho e dois anos mais novo que você? _ É, queria sim. Mas relaxa, não tem problema, eu já imaginava. _ Mas e você? Eu não esperava que você fosse assim, desse jeito. _ O que tem de tão errado comigo? Você tá me ofendendo... _ Você falou que era loira. _ E eu sou loira! _ Pois é. Deve ser até natural, de olho azul e tudo. _ Naturalíssima – mexeu nos cabelos. _ Disse que era alta, magra, e é alta e magra mesmo. _ Então. _ Falou que tinha seio grande e olha aí, dois baita peitões! Até a pinta em cima da boca era verdade! Tudo verdade! Tudo verdade! Ela percebeu que o estava perdendo. Tentou mudar de tática. _ É nada, a pinta eu fiz com lápis. Ele ficou na ponta do pé e passou o indicador na pinta, inquisitivo. _ É de verdade! Tem até um relevinho! _ Tá bom, eu menti. Quer dizer, falei a verdade! Era tudo verdade. Mas e daí? Eu gostei de você, qual o problema? _ O problema é que eu não sei falar com meninas que nem você. Se eu soubesse que você era assim, do jeito que você é, nem puxava papo no chat. _ Mas eu disse que era assim! Eu devia mentir? _ Claro! É a regra! Alguns rapazes da platéia concordaram balançando as cabeças entre si. _ Aliás, nem sei porque tô falando com você, tchau. Acabou! Não me tecle mais! _ Volta! Eu posso engordar! _ Não tem papo, eu não confio mais em você... Sua gostosa! Foi embora emburrado. Ela ficou triste, como qualquer mulher ficaria, mas não totalmente surpresa. Já havia calculado que alguma coisa poderia dar errado, encontro às cegas é assim mesmo, não existem garantias. Para minimizar o impacto de um possível - e agora consumado - fracasso, ela tinha um plano B. Resolvera marcar para o mesmo dia, meia hora mais tarde, de se encontrar, também pela primeira vez, com uma velha amiga virtual. Uma garota simpática, inteligente, divertida, com quem se comunicava havia tempo pela Internet. A expectativa do novo encontro a fez se sentir melhor. A qualquer momento sua amiga virtual, com quem já dera muitas risadas online (era adepta do “hehehe” enquanto a amiga preferia a versão mais jornalística, “risos”) estaria chegando e enfim as duas se conheceriam pessoalmente. A tão esperada reunião entre “jujuba348” e sua querida amiga, a “Biluzinha”. Quem sabe até a “GatinhaSexy” viesse junto, não tinha dado certeza, mas sua intuição feminina dizia que viriam as duas. O Julião, ali atrás, deu uma ajeitada no boné e olhou no relógio.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 12h53
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INGREDIENTE SECRETO
 Vinte anos de casados e finalmente eram dois absolutos desconhecidos. Ela mudou demais, ele mudou de menos, não sabiam exatamente em que ponto haviam tomado caminhos opostos, mas já fazia bem uns dez anos que o único assunto em comum entre os dois era a culinária. Ambos mantinham o hábito de cozinhar, o que faziam com muita competência, e este era o único tema em que parecia haver naquela casa algo próximo do amor, ou da estima mútua. Num dia qualquer, nenhuma data especial, ela preparou um jantar, montou a mesa mais bonita que o de costume, vestiu-se para a ocasião e chamou o marido. _ Fiz uma receita nova pra você. Ele se animou. _ Nova? _ Quer dizer, mais ou menos nova. É um salmão, mas eu pus um ingrediente diferente. _ Não conta. Deixa eu adivinhar. _ A idéia é essa. Estava excitado. Se a intenção era reavivar um pouco da alegria do casal, ela havia acertado. O homem sentou-se e logo deu a primeira garfada. Mastigou lentamente, tentando extrair o máximo de eficiência de cada papila gustativa. Tinha uma expressão de sommelier. _ Primeiramente (ele usava “primeiramente” quando o assunto era comida, achava que devia ser mais formal nessas ocasiões), está delicioso. Um primor. _ Obrigada. _ Tem mesmo um sabor especial aqui, alguma coisa que eu ainda não consegui identificar. Não é hortelã, é? _ Não, não é hortelã. _ Hum... Difícil, difícil... Deu um gole no vinho. Provou mais um pedaço. _ Muito bom... Alecrim não é. _ Não. _ Já sei! – hesitou - Coentro! _ Quase. _ Não é coentro? Achei que eu tinha adivinhado. _ Passou perto, passou perto. Ele ainda não havia encostado no risoto, que esfriava no prato, e que também parecia estar ótimo. Seu interesse se resumia ao tal ingrediente surpresa, que passara a ser uma questão de honra desvendar. _ Não é alcaparra, com certeza. Salsinha também não, cebolinha, muito menos. Ela parecia impaciente. _ Come mais que você descobre. Encheu a boca com um pedaço enorme. Mastigou, mastigou, pensou, meditou, até que seus olhos brilharam. Sentiu a garganta se fechar. Falou com dificuldade, porém entusiasmado, enquanto começava a passar mal. _ Já sei! Descobri! _ Fala. _ É cianureto! Cianureto! _ Acertou! _ Eureka! Eureka! – tossia, estava vermelho, a voz cada vez mais rouca. _ Parabéns, você sempre foi bom nisso. Que paladar! _ Cianureto! Claro, tão óbvio. _ Fiquei com medo de colocar demais e estragar a receita. _ Não, tá perfeito. Harmonioso. Combinando com o limão e a pimenta dedo-de-moça. Você é uma chef exemplar – tossiu mais. _ Obrigada, obrigada. Você é que é um gourmet exemplar. Nesse momento ele já estava no chão, se contorcendo. Suas últimas palavras, que se esforçou ao máximo para conseguir pronunciar, foram: _ Mas o risoto... ...nem provei... O arroz passou do ponto! Ela socava o defunto com força. _ Canalha! Canalha!
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 23h32
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RAPAGÃO
 _ Passa o relógio, tio. Foi assim que o rapazinho franzino, quase raquítico, abordou o fortão atlético que acabava de adentrar o parque para sua corrida diária. Estava desarmado, sozinho e não inspiraria qualquer temor por parte de um esquilo de tornozelo torcido. O homenzarrão preferiu não levar aquilo à sério, apenas passou a mão desarrumando os cabelos sujos do garoto e disse qualquer coisa bem humorada, dessas que brotam irritantemente a todo momento da boca daqueles que esbanjam saúde. O guri não gostou. _ Olha, eu tô avisando... Começou a correr e em pouco tempo completava a primeira volta no imenso parque. Ao terminar o percurso, debaixo de sol arábico, percebeu a presença do menino, sentadinho num banco, observando o lago e seus resistentes patos poluídos. Desistiu de assaltar, imaginou. Mais uma volta e o rapazinho ainda estava lá. Teve a impressão de que recebeu um leve aceno de cabeça ao passar. Ficou com pena do menino. Pensou que antes de sair do parque deixaria os poucos trocados que levara para comprar o isotônico com ele. Não tinha culpa da situação em que se encontrava, era uma vítima do sistema perverso. No meio da quarta volta ao redor do parque, cruzou percursos com outro rapagão atlético que, sem que nenhuma palavra fosse dita, iniciou uma disputa entre eles. Correu mais rápido, mais rápido, mais rápido. Ganhou a disputa, mas terminou a volta, a última que daria naquele dia, absolutamente esgotado. Não conseguiria dar mais um passo, o coração disparado, o rosto quente. Estava com as mãos apoiadas nos joelhos, tentando recuperar o fôlego, quando sentiu seu relógio ser cuidadosamente desafivelado e retirado do seu pulso. Abriu os olhos e, através de uma gota de suor que teimava em não cair dos cílios, pôde ver o sorriso do menino, que a esta altura já usurpava-lhe também os trocados do bolso. Saiu andando com os pertences do atleta, nem se deu o trabalho de correr. Havia um policial a dez metros dali, mas o máximo que saiu da boca do rapagão foi um grunhido resfolegado, que não foi entendido, obviamente, pelo guarda como um pedido de socorro ou como coisa alguma. Com o perdão da expressão, leitor, mas aquilo não passava de um grunhido resfolegado.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 14h11
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ROMANCE
 Ele marcou um jantar inesperado numa quarta-feira à noite. Pelo tom de voz ao telefone, não seria exatamente romântico. Mesmo assim, na hora marcada, ou uma meia horinha depois da hora marcada, ela apareceu linda, chamando a atenção dos outros clientes do restaurante. O garçom puxou a cadeira. Ela sentou-se, elegante. O marido já estava lá, suando (ele costumava suar muito), parecia nervoso. Sob a luz da vela ao centro da mesa, ela segurou a mão dele e disse:? - Desembucha, Paulo. ? Ele limpou o suor no guardanapo de pano, olhou para os lados e pigarreou.? - Dessa vez você foi longe demais.? - O livro?? - Claro. O livro, essa droga desse livro. ? - Eu sabia. Você está misturando as coisas, Paulo. Eu sou uma escritora, é a minha profissão, você sabe disso.? - Claro que eu sei, eu sempre admirei o seu talento, foi o que aproximou a gente. Mas era bem diferente naquela época. Você escrevia contos eróticos, lembra? Aquilo, sim. Eu li um deles e pensei: “preciso conhecer essa mulher”. ? - Qual foi mesmo? ? - “Orgias na escada”.? - Era um conto romântico. ? - Eu lia tudo o que você escrevia. Os textos eram picantes, sensuais, não tinha ninguém melhor do que você para descrever uma, uma...? - Paixão?? - Putaria.? - Agora é putaria? Antes você dizia que era arte...? - Mas é arte! Claro que é! O que seria da arte sem a putaria? Inclusive, depois da gente se conhecer, os textos ficaram bem mais ricos. Você descrevia tudo o que a gente fazia, lembra? Teve aquele conto do metrô, o da obra abandonada, o do tanque do leão-marinho...? - Esse foi um dos melhores. ? - Aquilo era um fetiche para mim, quando a gente transava era como se todos os seus leitores estivessem olhando. Aí veio o primeiro romance, uma obra-prima.? - “Meu marido insaciável”. Imaginei que você fosse gostar.? - E o seguinte, então: “Um verão em 69”. ? - Nossas primeiras férias, em 1993.? - Depois vieram “Quanto mais, melhor”, “O que é possível no Kama Sutra”, “O martírio de um estrado”, tantos que eu nem lembro de todos. O nosso amor estava lá naquelas páginas, de verdade. Os gestos, os toques, os cheiros. Até que, de repente, você vem com aquele livro mentiroso...? - Você tem que entender, aquilo foi quando eu comecei a escrever ficção, eu expliquei isso na época. Era ficção!? - “Broxada em Marte”, Silvia? E desde quando marciano usa meias? Bem na hora do sexo?? - Eram quatro meias! Você nunca usou quatro meias! ? - Daí para a frente foi só esculhambação. “O amor já foi melhor”.? - Era um livro filosófico. ? - “Decepções amorosas de uma samambaia”. Samambaia! Você podia ter arranjado um disfarce melhor!? - Não era disfarce, era uma planta! Você é muito desconfiado!? - A planta era escritora!? - Mas ela era ruiva, eu sou morena! Não tem nada a ver!? - Eu relevei, aceitei seus argumentos por todos estes anos. Mas esse livro novo eu não vou aceitar!? - Por que não? Você não pode reprimir a arte!? - “O homem do membro pequeno”, não! Aí já é demais!? - É uma metáfora!? - Você não conseguiu me explicar essa metáfora até agora.? - É uma metáfora complexa, cada um entende o que quiser...? - Eu entendi muito bem. Dessa vez você subestimou a minha inteligência! E você que sempre disse que era de um tamanho bom... Eu quero o divórcio!? - Calma, vamos conversar!? - Nada disso! Eu não converso mais com você. Nem uma palavra. Senão depois vem o livro “O homem da conversa chata”. Chega! Acabou! Adeus! ? Saiu irritado, esbarrando nos garçons. Ela ficou na mesa atônita, antes de tudo, surpresa com aquela reação. Não imaginava que algum dia o marido pudesse perceber as sutilezas da sua literatura. Pegou o telefone na bolsa e ligou para o seu editor, que era também um amigo.? - Hélio? É a Silvia. Meu marido pediu o divórcio.? - Por causa do livro?? - Foi.? - Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Uma pena.? Um instante de silêncio nos dois lados da linha até que ela fala:? - Hélio, cancela o projeto.? - Como? Cancelar? Mas já está tudo encaminhado!? - Cancela. Agora.? - Pensa bem, Silvia! O seu marido já não pediu o divórcio? Para quê cancelar, então? Não vai adiantar nada! ? - Eu sei, eu sei, não é isso. É que, depois do que aconteceu, eu prefiro publicar aquele outro, que eu escrevi antes, sabe? Agora dá.? - É verdade, bem pensado, aquele é até melhor do que o novo. ? - Eu só quero fazer umas alteraçõezinhas, já faz algum tempo que ele foi escrito. ? - E o que eu faço, então? Espero você mandar as mudanças?? - Isso, espera. Quer dizer, por enquanto já pode mudar o título. ? - Por quê? Eu gostava tanto de “O amor e o vizinho”.? - Eu também gosto. Mas põe no plural.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h18
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CEGOS E ALBINOS
 Estavam lado a lado, mas não tinham se visto. Ele ouvia música, ela pensava na vida, até que os olhares se cruzaram. Ele baixou o rosto, era um tímido. Ela, mais atirada, insistiu no foco até que ele voltasse os olhos na sua direção mais uma vez. Deu um sorriso e ele ficou ainda mais sem graça. Como ato defensivo, o rapaz puxou assunto. - Quente, hein? - Pois é. Você é de Carapicuíba, né? - Eu sou de São Paulo mesmo, mas moro lá. - Eu reparei... Gosto de azul. - Ah, obrigado. Preto é bonito também. - Led Zeppelin? Isso que você tá ouvindo? - Quase. Stevie Wonder. - Legal. - Você gosta? - É o cego, né? - Isso. - Muito. Adorei o filme, inclusive. - O filme é sobre o Ray Charles. É outro cego. - Tem dois cegos? - Tem. - Eles ouvem muito bem, têm ouvido bom. - É o que dizem... - Interessante, né? Dois cegos, tem dois albinos também. - Dois albinos? - É, o Sivuca e o Hermeto Paschoal. - Eles são albinos? - São. E músicos. - Interessante... Um instante de silêncio à procura de assunto. Ela fala primeiro, sempre ela. - Você ia ficar bonito albino. - Hein? - Ou cego. - Como assim? - Tô dizendo que te achei bonito, ô, dificuldade... - Ah, brigado. Você ficaria bem albina também. - É, ia ser loira. - Você é loira. - Digo, natural. - Ah, claro... - Pula pra cá. - Agora? - É, pula pra cá. Aumenta o Ray Charles e vem. - Stevie... Tá bom. Aumentou o som e pulou. Transaram quase sem se conhecerem, do comecinho da Living for the City até quase o final da Don’t You Worry ‘Bout a Thing. Ninguém por perto notou, cada um no seu mundo particular. Ele pulou de volta para o lugar onde estava antes e ficaram conversando por mais um tempão. Mas, num momento qualquer, como haveria de acontecer, o trânsito resolveu andar e foi cada um para o seu lado. Ele, no seu carro azul, ela, no seu automóvel preto, pelo cada vez mais romântico congestionamento de São Paulo. Mais tarde, o rapaz, que não tinha camisinha na hora e não deixou que isso fosse um empecilho, ficou imaginando que a garota do carro preto poderia estar grávida naquele momento, em qualquer ponto da cidade. E, caso estivesse, tentava adivinhar se o bebê seria parecido com ele, com ela ou se seria albino.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 17h23
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DESAFINADO
 O professor de piano mandou chamar o pai e foi taxativo: - O menino tem ouvido absoluto. A princípio o pai não entendeu, mas o homem explicou que se tratava de um caso raro, um talento nato. O rapazinho seria, segundo o relato, capaz de reconhecer qualquer nota, proveniente de qualquer coisa, fosse instrumento, pessoa, animal ou objeto. Apertou uma nota aleatória no piano. - Diz aí, menino! - Ré sustenido. - Olha aí, tô falando. Bateu a tampa do instrumento sobre as teclas para continuar a conversa com o pai. O menino ouviu o ruído e emendou: - Si bemol. - É um gênio. Cuide bem do garoto. O pai saiu orgulhoso e, de passagem pela secretaria do conservatório, já tratou de inscrever o filho em mais dois instrumentos, além de um curso de canto lírico. Vai ser maestro, imaginava. E o menino não decepcionou, aprendia tudo com a facilidade de um músico de outros tempos reencarnado naquele corpo franzino. Mas o forte dele, mostrou-se mais tarde, era o canto. Uma voz estupenda, segundo a professora, uma senhora de idade avançada que cantava como soprano de ópera, mas que, falando, quase não se ouvia. Em pouco tempo, ele era solista do coral do bairro. Vivia com as bochechas roxas, cansativamente apertadas pelas mulheres da platéia que insistiam em ver fofura em talento tão erudito. Qual não foi a surpresa do pai - e aqui não há nenhuma pergunta, mas apenas a força da expressão - ao flagrar o menino, em casa, em seu horário de ensaio, desafinando terrivelmente num trecho de música que já cantava havia tempos, antes com perfeição? Não seria necessário ouvido absoluto para constatar o erro, apenas ouvido, tamanha a desafinação. E a ela seguiu-se outra. E outra. E em poucos versos, a música estava desconfigurada, totalmente fora de tom, doía na alma ouvir. O homem analisou que não deveria cobrar o menino e que talvez isso fosse sinal de que estivesse sobrecarregado. Interrompeu o ensaio e mandou o rapaz ir brincar. No dia seguinte, depois de largar o filho no ensaio do coral, posicionou-se embaixo da janela, sem ser visto, e se esforçou para tentar identificar a voz do rapaz. Mas não pôde perceber qualquer indício de desafinação, tudo soava perfeitamente harmonioso e belo. Infelizmente, o alívio durou pouco. Durante a semana, os casos de falhas musicais foram se multiplicando, a ponto de o telefone tocar por algumas vezes trazendo reclamações de vizinhos descontentes. Parecia mesmo que o garoto se esforçava por errar as notas, sendo capaz de cantar uma música inteira sem afinar por um compasso sequer. Até que, numa tarde daquelas, o rapaz ligou da casa de um amiguinho e pediu permissão para dormir lá, no que foi prontamente atendido. Secretamente, o pai não agüentava mais tanta desafinação e a ocasião caíra como uma luva, ou como um tapa-ouvidos. Aproveitou a noite de folga e combinou com a esposa um jantar num restaurante em que há muito tempo não iam, e foi justamente no caminho que se deu o caso. Pararam num sinal fechado e o homem ouviu, ao longe, a voz desafinada do menino. Estacionou o carro às pressas e foram seguindo o som, até que acabaram na porta de um karaokê tipicamente japonês, de onde puderam avistar o rapazinho em cima do palco, aos berros. A música acabou e o garoto desceu a escadinha lateral, onde foi recebido por uma menina de feições orientais que o esperava aplaudindo muito. Ele ganhou um enorme beijo no rosto e um abraço apertado desta que parecia ser sua nova fã, ainda mais entusiasmada que as velhinhas do coral. Então foi a vez dela subir ao palco. Cantava mal, muito mal. O pai soube depois que era um doce, uma flor de lótus, mas que não suportava uma coisa, a única capaz de tirá-la do sério: alguém que cantasse melhor do que ela. Tossiu em mi e apertou uma das bochechas do rapaz. Um gênio esse menino.
Opção 2 de imagem:
 (Ohhhhh...)
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 00h31
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HIPERTÉDIO
 Pouca gente viu quando aquele homem de penteado impecável despontou no topo do prédio, com semblante bastante entediado. Desprezando qualquer tipo de etiqueta com que costumam atuar os suicidas tradicionais, que ameaçam se atirar dezenas de vezes, chamam a atenção dos transeuntes, esperam pela imprensa, este simplesmente abriu os braços e se atirou, com o mesmo ar de tédio com que apareceu lá em cima. Voou feito pedra pelos mais de vinte andares até o chão e feito pedra caiu, mas não da maneira apoteótica como seria esperado, mas sim abrindo na calçada um cartunesco buraco no exato formato de seu corpo. Levantou dali como que decepcionado, sem um arranhão, limpou a roupa e saiu mal-humorado, para a total surpresa de quem viu a cena. Minutos depois, ele entra em sua casa e vai até um armário onde se encontram diversas ferramentas, há anos sem uso. Vasculha até que encontra uma enorme serra, dessas que se usa para tocar como violino em desenho animado, grande e cheia de dentes metálicos. Com convicção, apóia o próprio braço num balcão de madeira e começa a serrar o pulso, mas por mais improvável que seja, nada acontece à própria pele, mas sim à pobre serra, que se despedaça dente por dente, soltando faíscas. Depois de passar duas horas aspirando o cano de escapamento do carro ligado sem sentir qualquer alteração respiratória e mais outra hora dentro de uma banheira cheia d´água com um secador ligado mergulhado nela até que se queimasse o fusível da casa, saiu, irritado, em direção à linha do trem. Ali chegando, ficou parado entre os trilhos, esperando a próxima composição que se aproximasse, o que não tardou. O maquinista tocou a buzina o máximo que pôde, mas o esquisito homem de cara fechada continuou no caminho da locomotiva até o último momento, vendo o farol aceso se aproximando rapidamente, sem esboçar qualquer emoção. Apesar da tentativa do condutor de parar, o trem chocou-se com o cidadão a uma velocidade considerável, mas seu corpo sequer se moveu, ficando a máquina e seus vagões com toda a força daquele impacto. Descarrilhamento, fumaça e gente gritando para todo lado. O homem saiu dali sem um machucado sequer, mais mal-humorado do que nunca. Neste momento, surge no céu um emblema, projetado nas nuvens provavelmente por um imenso holofote em algum lugar da cidade. O suicida mal-sucedido, faz um gesto obsceno para o sinal no céu, utilizando-se de um único dedo, e vai embora resmungando. Super-herói depressivo é caso sério.
nognogueira@uol.com.br
Escrito por Marcelo Nogueira às 23h30
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